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Bastidores da Seleção Brasileira

Luiz Prosperi

30 de maio de 2014 | 21h02

Direto da Granja Comary – Teresópolis
 
DIÁRIO DA SELEÇÃO (4) – 30/05
De Cristiano Ronaldo  a Neymar
 
Portugal está em transe. Cristiano Ronaldo, o astro maior, pode ficar sem jogar o começo da Copa do Mundo. Sem o gajo, atordoado com uma lesão, os portugueses perdem força. Seria como ver a Argentina sem Lionel Messi. De repente, o Brasil sem Neymar. Quem mais? Pirlo fora da Itália e Iniesta longe da Espanha. Craques costumam escrever as histórias das Copas. Sem eles, muitas páginas ficam em branco à espera de um coadjuvante comum a virar herói.
 
A provável ausência de Cristiano Ronaldo e de outros expoentes em importantes seleções é uma dádiva para Felipão. Adversários perdem força e o Brasil se robustece. Até aqui, a esquadra de Scolari não se sente ameaçada de perder um de seus pilares. Nenhum deles se apresentou com lesão e, passada quase uma semana de trabalho no alto da serra em Teresópolis, não há sinal de que um músculo possa estourar.
 
Felipão é daqueles sujeitos de sorte. Na Copa do Mundo de 2002, apostou em dois moribundos (Rivaldo e Ronaldo) calejados de lesões e foi para a guerra. Os dois arrebentaram os adversários e o Brasil levantou a taça.
 
A situação é outra agora. A 11 dias da abertura da Copa no Itaquerão, os rivais lutam contra seus flagelos, enquanto o time de Felipão sobra na Granja Comary. A preocupação do treinador nem é com a recuperação de um ou outro baleado, e sim conter a gana dos que brigam por uma vaga no time.
 
Tem gente pedindo passagem, mesmo com alto de grau de amizade que o grupo faz questão de ressaltar. São como uma família, apesar de Felipão insistir que não existe uma segunda família Scolari. Uma coisa é certa: titular tem de dormir acordado sob pena de perder lugar no time.
 
O único sem concorrente é Neymar. Não há entre os dedicados rapazes de Felipão um que possa fazer sombra à estrela solitária da seleção brasileira. Neymar tem consciência do seu peso para o time. Tanto sabe que nem faz questão de aparecer. Anda discreto como um anônimo nesses dias de retiro na Granja Comary.
 
Pode ser uma estratégia. No dia da estreia do Brasil contra a Croácia em Itaquera, ele vai calçar uma chuteira dourada como a sapatilha de um rei. Nem será necessário se ajoelhar para fingir que está amarrando a bota e atrair assim as lentes para a marca do patrocinador. Tudo o que Neymar tem a fazer é deixar as logomarcas de lado e jogar bola. Muita bola.
 
A seleção depende de Neymar. Mas o Brasil ainda não está em transe por causa dele, como Portugal está aflito com Cristiano Ronaldo.
 
DIÁRIO DA SELEÇÃO (3) – 29/05
Lorde Parreira não vive sem o futebol
 
Jogadores da seleção estão no campo 2 da Granja Comary se aquecendo para o primeiro treino com bola. No campo 1, assessores de Scolari distribuem cones, organizam um punhado de bolas, preparam o carrinho de isotônicos e um deles, um senhor de 71 anos, empurra uma trave sobre rodinhas. Um desavisado jamais ousaria pensar que Carlos Alberto Parreira, na sua oitava Copa do Mundo, pudesse empurrar uma trave – um serviço para gente menos graúda no comando do escrete.
 
Mas era ele mesmo, Parreira. Dado a retratar a natureza pintando quadros (óleo sobre tela), amante da boa leitura, um apaixonado na arte de fotografar e quase à beira da aposentadoria no futebol, ele parece remoçado nessa função de coordenador da seleção. Carrega traves, filma os treinos, examina chuteiras dos craques e destila sua paciência ao passar seus conhecimentos do jogo da bola aos atletas. É uma mão na roda para Felipão. O treinador o trata como um dos “sabidos” da comissão técnica, aqueles que estudam o adversário e dissecam a própria seleção como um aluno aplicado acostumado a tirar nota 10.
 
Aos que o conhecem, fica difícil entender como Parreira ainda tem paciência para levar o dia a dia do futebol. Lembro que em 2000 fui até um centro de treinamentos em Jarinu, próximo a Jundiaí, entrevistá-lo. Ele estava em um período de treinos com o Santos. Ao encontrá-lo à beira da piscina no CT, era quase impossível não ouvir o som de pagode a decibéis com que os jogadores se divertiam. Parreira disse assim: “Essa é a parte dura de aguentar no futebol. Não sei como eles conseguem ouvir essa música nessa altura. Nada contra, mas acho que está na hora de eu parar.”
 
Passados 14 anos daquele desabafo, Parreira continua firme no futebol. Não será surpresa se compartilhar com Dante um pagodinho na Granja. Aliás, os dois conversaram uns dez minutos depois do treino da manhã. É bem provável que não falaram de pagode. Parreira não vive sem o futebol.
 
 
DIÁRIO DA SELEÇÃO (2) – 28/05
Frio e chuva em dia  de verdades e mentiras
 
Nuvens escuras e carregadas despejaram a conta-gotas uma chuva gelada e persistente sobre a Granja Comary, o dia todo e noite adentro. As montanhas da serra a circundar a concentração da seleção também vestiam o cenário de terror instalado em Teresópolis. Neblina, com nome de russo, ameaçou estender seu véu no campo de treinamento do time de Felipão.
 
Não bastasse o clima pesado no primeiro dia de treino dos jogadores com a bola, as redes sociais trataram de inundar a seleção com ameaças de cortes. Oscar, Maicon, Jô, os mais cotados. Havia até apreensão com um dedo do pé esquerdo de Neymar. O imaginário a serviço do sobrenatural. 
 
Em dias de Copa do Mundo tudo isso é muito normal, corriqueiro. Antes da internet, os boatos voavam via ligações telefônicas e ondas do rádio até as imagens da tevê desmentirem tudo e os jornais no dia seguinte comprovarem que tudo não passara de um alarme falso.
 
Agora, não. Há muita pressa para se divulgar o que for, verdade ou não. Não há controle, muito menos precisão. Um simples comentário vira tensão como um rastilho de pólvora até a caixa cheia de dinamites. No caso da seleção, as redes estendem suas teias e incomodam o comando do time. Incomodam tanto a ponto de o médico titular do escrete ter de vir a público para garantir que nenhum jogador corre risco de ser cortado, pelo menos nos próximos dias. 
 
Às vezes, nem mesmo as palavras do médico garantem a tranquilidade. Pouco se respeita a palavra oficial. A única certeza é olhar para o campo e ver se todos os jogadores estão inteiros, se nenhum está capenga. Então fomos olhar o campo molhado da Granja. Todos eles estavam lá de manhã, correndo sem percalços e trocando passes. À tarde, apenas três (Thiago, David e Maxwell) deles ficaram na academia enquanto a turma suava na grama aguada. A chuva e o frio não deram trégua. E teve gente que jurou ter visto Maicon mancando.
 
DIÁRIO DA SELEÇÃO (1) – 27/05
O futebol mudou, a Granja também
 
Há 24 anos pisei pela primeira vez na Granja Comary. A seleção dava os toques finais rumo à Copa da Itália. Sebastião Lazaroni, que não se perca pelos seus feitos, era o treinador. Atendia à imprensa, pouco mais de 50 jornalistas, em um cercadinho de madeira, quase um curral, próximo à entrada dos vestiários. Lazaroni defendia o esquema retranqueiro, então uma novidade na seleção acostumada ao fino toque de bola. O mundo do futebol era outro.
 
Os jogadores, capitaneados por Dunga, Ricardo Gomes, Alemão e outros de couro duro, não tinham medo de se manifestar. Contrários às exigências da CBF, na época já sob o comando de Ricardo Teixeira, tamparam com as mãos o logotipo do patrocinador da seleção, na foto oficial da delegação antes do embarque para Roma. Protestavam contra a baixa premiação prometida pela CBF se o Brasil fosse tetra nos campos italianos. A foto oficial nunca foi publicada.
 
Os portões da Granja eram franqueados aos políticos. Por ali passou Fernando Collor, eleito presidente do Brasil em 1989. Collor, com pinta de atleta, queria bater bola com os craques do escrete de Lazaroni em busca de popularidade. No dia da sua visita, desabou um temporal em Teresópolis. O presidente teve de se contentar com uma brincadeira em uma quadra de futebol de salão. 
 
Depois de uns 15 dias de treinos na Granja, Lazaroni embarcou com a sua trupe para a Itália de onde voltaria para casa bem mais cedo do que se imaginava com um rotundo fracasso nas costas.
 
24 anos depois, a Comary está moderna. Felipão atende a imprensa em uma sofisticada tenda para 1.800 jornalistas. Seu esquema tático não enaltece a retranca. Os jogadores não têm um pingo de rebeldia. Em vez de esconder as logomarcas tratam de valorizá-las ao extremo.
 
A Copa vem aí, ruas do País ardem e a presidente Dilma, parece, não vem visitar a Granja para tirar uma lasquinha da seleção. O mundo do futebol é outro.

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