Futebol e a intolerância do terrorismo
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Futebol e a intolerância do terrorismo

Atentados em Paris remetem ao terror de Manchester na Eurocopa de 1996

Luiz Prosperi

14 de novembro de 2015 | 17h51

O minuto de silêncio celebrado neste sábado no estádio Old Trafford em Manchester expôs o tamanho da dor com os atentados da noite de sexta-feira em Paris e aguçou minha memória ao vasculhar os limites entre o futebol e o terror.

Para quem não acompanhou pela televisão, antes do amistoso entre amigos de Beckham e Zidane, a favor da Unicef, no Old Trafford, uma cena apertou o coração. Os dois times se perfilaram ao arredor do grande círculo do gramado para a homenagem às vítimas dos atentados em Paris. Estava ali uma constelação de craques de um passado não muito distante com Beckham, Seedorf, Cafu, Ronaldinho Gaúcho, Luis Figo e outros.

O árbitro apitou abrindo a contagem do minuto de silêncio. O estádio estava lotado. E uma chuva não muito fina caía. E, aí, o momento arrepiante. Naquele cenário com mais de 50 mil torcedores no Old Trafford, o silêncio estendeu seu manto e se ouviu apenas o som dos pingos de chuva caindo no gramado. Comovente. Passado o minuto, os aplausos tomaram conta da arena. Respeito e luto.

Vendo aquelas cenas, me veio à memória o atentado terrorista de 1996 em Manchester, a mesma cidade do minuto de silêncio quebrado pelos pingos de chuva deste sábado. Eu estava em Manchester naquele junho de 1996 cobrindo a Eurocopa pelo Jornal da Tarde e Estadão. E vi de perto o que a intolerância é a capaz de produzir.

euro96

Eu e os jornalistas José Eduardo de Carvalho e Paulo Guilherme, todos do JT e Estadão, estávamos hospedados em um hotel na região central de Manchester. No dia 15 de junho fomos a Londres cobrir o jogo Inglaterra e Escócia. Depois do jogo voltamos a Manchester à noite. Quando desembarcamos na estação deparamos com um aparato policial intimador.

Os policiais nos pediram documentos e disseram que a região central da cidade estava bloqueada e não podíamos entrar no nosso hotel. Fomos obrigados a passar a noite em um “pulgueiro” na periferia de Manchester.

No dia seguinte, autorizados pela polícia, nos dirigimos ao nosso hotel. Apavorante. Toda a região central, conhecida como Corporation Street, estava destruída. Fomos informados de que o atentado era obra do IRA, exército republicano irlandês, que fez explodir um pequeno furgão abarrotado com meia tonelada de explosivos.

Algumas horas antes do atentado, eu havia passado por aquelas ruas antes de seguirmos para Londres para cobrir o jogo da Eurocopa. E por isso fiquei impressionado, sem chão, ao deparar com os estragos provocados pela explosão.

Não houve mortes porque os terroristas comunicaram à uma rede de TV local que um atentado estava por acontecer na Corporation Street. A polícia agiu rápido e evacuou a região em poucos minutos. Mesmo assim, 200 pessoas ficaram feridas no rastro de destruição. Muitos edifícios tiveram de ser demolidos mais tarde, tamanho impacto da explosão.

No nosso hotel, fomos informados que agentes da polícia inglesa vasculharam nossas malas e pertences na investigação em busca dos responsáveis pelo atentado. Um dos objetivos do IRA era interromper a Eurocopa – Manchester era uma das sedes do torneio – e acabar com a negociação de paz entre católicos e protestantes que se iniciavam em Belfast naqueles dias.

Sem mortes, apesar do imenso estrago material naquele atentado, a Eurocopa prosseguiu na Inglaterra que tinha como lema “o futebol voltou para sua casa”.

Depois do susto, passei a refletir sobre tudo aquilo. Percebi que o futebol era e ainda é um chamariz para a intolerância do terrorismo. Nos atentados de Paris na noite desta sexta-feira, a sombra da tragédia esteve muito perto de encobrir o Stade de France durante o amistoso entre França e Alemanha. Faltou pouco para homens-bomba provocarem um banho de sangue naquele estádio de futebol.

Até quando?

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