Mágoa de Marin pode levar Tite à seleção
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Mágoa de Marin pode levar Tite à seleção

Chateado com Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF pode provocar a queda de seu sucessor

Luiz Prosperi

05 de novembro de 2015 | 18h56

Troca de treinadores da seleção brasileira obedece mais aos interesses políticos dos dirigentes da CBF ao mérito dos técnicos. Desde 1990 tem sido assim. De Ricardo Teixeira a José Maria Marin e Marco Polo Del Nero nunca se privilegiou a qualidade do treinador e sim o que ele representa aos torcedores, imprensa e parceiros da CBF no momento.

Por isso, a crise de comando na entidade com a prisão de Marin e a situação delicada de Del Nero podem levar Tite a ocupar o posto de Dunga no início de 2016. É só Marin dar com a língua nos dentes e colocar Del Nero no balaio dos escândalos de corrupção no futebol, como espera a Justiça americana. Del Nero emparedado e fora da CBF, abre campo para seu sucessor trocar Dunga por Tite.

Marin, apesar de negar uma delação premiada que poderia comprometer Del Nero, está muito magoado com o abandono a que foi submetido pelo comando da CBF, desde a sua prisão em 27 de maio em Zurique.

Aos mais próximos, Marin disse em Nova York que não engoliu a retirada do seu nome da fachada da sede da CBF no Rio e também da pouca solidariedade que teria recebido dos cartolas nos longos cem dias de cárcere na Suíça. Diante desse pote de mágoa de Marin, pode sobrar para Del Nero.

O presidente da CBF, por enquanto, sustenta Dunga apesar dos resultados pífios do técnico no comando da seleção. Mas pode oferecer na bandeja a cabeça de Dunga aos parceiros da CBF se a seleção não for bem contra Argentina e Peru na próxima semana pelas Eliminatórias da Copa.

Essa eventual manobra de Del Nero na troca de técnico da seleção para se sustentar no poder e agradar ao mundo da CBF não seria uma novidade.

Em 1990, Ricardo Teixeira, empossado na CBF um ano antes, engoliu a indicação de Sebastião Lazaroni na seleção a pedido de Eurico Miranda, então um de seus aliados quando assumiu a presidência da CBF em 1989.

O fracasso de Lazaroni na Copa de 90 levou Teixeira a trazer Paulo Roberto Falcão. Teixeira copiava a Alemanha, campeã em 90 na Itália, com Franz Beckenbauer, que nunca havia dirigido um time de futebol. Era uma novidade.

neromarin

SAI FALCÃO ENTRA PARREIRA – Quando Falcão deixou de ser campeão na Copa América em 91, Teixeira recorreu à dupla Parreira e Zagallo, nomes da moda naquela época. Parreira levou o Brasil ao tetra em 1994, depois de um jejum de 24 anos. A troca de Parreira por Zagallo foi uma cortesia ao veterano treinador. O indicado seria Vanderlei Luxemburgo, que estava voando com o Palmeiras.

Teixeira corrigiu esse erro ao trazer Luxemburgo após a Copa de 98 para o lugar de Zagallo. Um dos maiores defensores de Luxemburgo na seleção foi J. Hawilla, então parceiro e amigo número 1 de Teixeira. O técnico repetia no Corinthians o sucesso que conseguiu no Palmeiras, entre 1993 e 96.

SAI LUXEMBURGO ENTRA FELIPÃO – Luxemburgo seria o técnico do Brasil na Copa de 2002, mas a CPI do Futebol emparedou Teixeira que, para salvar seus anéis, trocou o comando da seleção. Sem opção, deu o time a Leão e, menos de seis meses, buscou Felipão, na época unanimidade nacional. Teixeira agradava assim parceiros e torcedores.

Campeão do mundo em 2002, Felipão não quis renovar contrato com a seleção. Teixeira pensou em resgatar Luxemburgo para “pagar a dívida” da demissão em 2000. Parceiros da CBF e Zagallo convenceram Teixeira a apostar novamente em Parreira. Dito e feito.

O fracasso do Brasil na Copa de 2006 com Parreira e Zagallo e mais a farra em Weggis levaram o presidente da CBF inventar Dunga para colocar a casa em ordem. Atendia mais uma vez aos interesses de parceiros e clamor popular.

SAI DUNGA ENTRA MANO – Dunga foi mal na Copa de 2010. Lá foi Teixeira em busca de outra unanimidade nacional, no caso Muricy Ramalho, que acabou rejeitando o convite. Sem opção, o presidente da CBF recorreu a Mano Menezes e ao amigo Andrés Sanchez, que estavam nas paradas do sucesso com o Corinthians.

No meio do caminho, Teixeira teve de sair às pressas da CBF em 2012. Marin e Del Nero assumiram e, desafetos de Andrés Sanchez, tiraram Mano da seleção. A um ano da Copa de 2014 não poderiam apostar em um novato e se socorreram aos últimos dois campeões do mundo, Parreira e Felipão. Era a fórmula perfeita para acalmar parceiros e iludir a torcida.

Os 7 a 1 colocaram um ponto final na dupla Felipão e Parreira. Marin, com aval de Del Nero, foi buscar o pitbull Dunga para mais uma vez devolver o brio à seleção.

Marin foi preso. Del Nero está enclausurado dentro da CBF. Se a corda começar a apertar seu pescoço, pode trocar Dunga por Tite, hoje uma unanimidade nacional.

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