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O repórter e o Rei

Luiz Prosperi

22 de outubro de 2010 | 21h48

Nápoles, julho de 1990. Estádio San Paolo lotado. Meia hora antes do jogo Itália e Argentina valendo vaga na final da Copa do Mundo. Diego Maradona era o centro do universo. A cidade amava o argentino que havia conduzido o modesto Napoli aos grandes títulos. Atmosfera diferente. Os italianos que não eram de Nápoles destilando ódio contra Dieguito. Os napolitanos adorando a sua divindade. Ingredientes de um jogão.

Era a minha primeira Copa como repórter do Jornal da Tarde. Estava lá na tribuna do San Paolo admirando tudo e imaginando quantas boas matérias sairiam daquela partida de futebol. Tensão, ansiedade. De repente observo um corre corre ao meu lado. Repórteres, cinegrafistas, curiosos, torcedores. Fui em direção ao foco das atenções. Lá estava Pelé. O Rei acabava de chegar ao estádio para comentar o jogo para uma rede de televisão. Que Maradona que nada! Pelé paralisou o estádio.

Naquela noite tive a noção exata da dimensão de Pelé, um ex-jogador com o mundo aos seus pés.

Loja Harrods, na Brompton Road, Knightsbridge, em Londres, 1996. Ao lado dos jornalistas José Eduardo de Carvalho e Paulo Guilherme, fomos conhecer o templo do consumo da capital inglesa. Um endereço dos mais sofisticados e badalados do mundo. Estávamos algumas horas antes do embarque para Liverpool, onde iríamos cobrir mais um jogo da Eurocopa.

Subimos alguns andares da Harrods e descobrimos que havia uma enorme fila no departamento de esportes da loja. Curiosos, fomos até o início da fila e… Pelé daria autógrafos aos fãs. A multidão aguardava o Rei. Não poderíamos sair dali sem entrevistar Pelé. Mas estávamos quase em cima da hora do embarque para Liverpool. Então combinamos que eu ficaria aguardando o craque, Eduardo e Paulo iriam para Liverpool.

Meia hora depois, ele apareceu. Alvoroço. Pacientemente atendeu centenas de fãs. Quando a fila acabou, Pelé se dirigiu para uma pequena sala da loja onde iria conceder uma entrevista exclusiva para meia dúzia de jornalistas ingleses. Fui de bicão. Os ingleses não queriam que eu entrasse junto na salinha.

Quando Pelé me viu, disse assim: “Ele é um jornalista brasileiro, deixa ele entrar”. Entrei e por uma hora acompanhei a longa entrevista que o Rei concedeu aos ingleses. Aí ele olhou para mim e disse “agora é a sua vez”. Foram mais 30 minutos de entrevista exclusiva, só minha. Agradeci ao Rei e fui correndo para estação de trem na tentativa de embarcar para Liverpool. No meu bloquinho de anotações havia uma entrevista de uma página com Pelé para o Jornal da Tarde. Uma consagração.

Frankfurt, julho de 2005. Eu e o companheiro Antero Greco descobrimos que Pelé daria uma entrevista apenas para jornalistas alemães em um hotel da cidade na véspera da final da Copa das Confederações entre Brasil e Argentina. Encontramos o hotel, a sala reservada aos repórteres, e por mais de duas horas tentamos compartilhar da entrevista. Fomos barrados até que Pelé nos viu. Abriu a porta da sala e nos convidou para uma entrevista exclusiva. Os alemães ficaram enfurecidos com a cortesia do Rei. Uma hora de conversa e Pelé chegou a chorar quando perguntamos sobre o seu filho Edinho, que estava preso no Brasil acusado de envolvimento com traficantes. Um petardo no coração do ex-jogador, que não escondeu sua emoção. No dia seguinte estava tudo lá nas páginas do JT e do Estadão.

Pelé completa 70 anos de idade nesse sábado, 23 de outubro, de 2010. Na minha longa carreira de repórter de esportes já estive muitas vezes com o Rei. Os relatos acima foram especiais e me marcaram para sempre. Para falar a verdade, acho que Pelé nem existe. É um mito.

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