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A falta de atividade e a distribuição de gordura

Ricardo Guerra

31 de outubro de 2013 | 06h10

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A prática regular de atividade física traz imensas vantagens para a saúde. Tais benefícios estão indiscutivelmente estabelecidos e são bem conhecidos pela grande maioria das pessoas. Consequentemente, o risco de muitos problemas físicos poderia ser reduzido com a prática de exercício no dia a dia.

Estudos realizados nos últimos anos sugerem que o comportamento sedentário (caracterizado pelo tempo que se passa em atividades recreativas em que nos encontramos sentados, como, por exemplo, assistindo televisão, lendo, jogando cartas, etc.) pode estar relacionado com um maior risco de desenvolvimento de uma série de problemas de saúde. Algumas complicações possíveis incluem a obesidade, a hipertensão, a diabetes, a síndrome metabólica e problemas cardiovasculares. Em alguns casos, esse risco pode persistir, independentemente de quanto nos exercitamos.

Uma pesquisa recente publicada na revista Medicine and Science in Sport and Exercise concluiu que o hábito de ficar sentado e a prática de atividade física têm associações distintas com a acumulação de gordura localizada em adultos mais velhos. Os resultados do estudo, conduzido pela Dra. Britta Larsen (pesquisadora da University of California San Diego), mostrou que a prática de exercícios estava associada a um grau menor de gordura intratorácica, visceral, subcutânea e intramuscular, enquanto um maior grau de sedentarismo estava associado a maiores níveis de gordura nas regiões pericárdica e intratorácica.

Perguntei à Dra. Larsen como seu estudo se destaca em relação a outras pesquisas da área: “Este é o primeiro estudo que mostra uma associação independente entre o sedentarismo, a atividade física e a distribuição de gordura. Estudos anteriores apontaram para uma relação entre a atividade física e a distribuição de gordura, especialmente a gordura visceral. No entanto, nenhum estudo analisou o comportamento sedentário e a atividade física de forma separada em uma população grande, diversificada”.

Além disso, há outra pergunta que vem sendo investigada atentamente pela comunidade científica: quais são as consequências fisiológicas negativas decorrentes de um estilo de vida sedentário e como estas podem, eventualmente, afetar-nos, independentemente do tempo que passarmos nos exercitando?

Em relação a esta questão, a Dra. Larsen disse-me que “o tempo que passamos sentados está associado a fatores de risco cardiovasculares, que são diferentes daqueles que estão associados à falta de atividade física. Isto sugere que o fato de uma pessoa ser fisicamente ativa pode não compensar os longos períodos de tempo que ela passa sentada”.

De fato, os principais mecanismos fisiológicos que fazem com que o tempo prolongado que passamos sentados seja prejudicial para a saúde são atualmente objeto de debates intensos dentro do campo da fisiologia do exercício. Pedi à Dra. Larsen que explicasse algumas destas hipóteses e abordasse os mecanismos específicos que podem estar por trás dos resultados do seu estudo:

“Honestamente, não sabemos muito sobre a acumulação de gordura e porque esta acaba se depositando em determinadas partes do corpo. O tempo que passamos sentados pode levar, em geral, a uma maior concentração de gordura, ocasionada por um consumo energético reduzido. Também há alguma especulação de que o sedentarismo pode impedir o metabolismo, mas não compreendemos bem porque é que o tempo que passamos sentados pode estar especificamente associado à gordura ao redor do coração”, ela me disse.

Quando eu perguntei qual seria o rumo de tais investigações, ela respondeu que o próximo passo será realizar estudos randomizados para verificar se existe uma relação entre o tempo que um indivíduo passa sentado e a gordura pericárdica e, portanto, se a redução de hábitos sedentários poderia reduzir a gordura ao redor do coração.

Perguntei-lhe ainda sobre as limitações ou deficiências envolvendo a metodologia de seu estudo. Ela me disse que sua investigação teve algumas limitações, sendo a principal o fato de que a quantidade de tempo sentado foi fornecida pelos próprios participantes e não através de quantificações objetivas. “Além disso, o estudo apenas mostrou que existe uma correlação entre o tempo que uma pessoa passa sentada e a gordura acumulada na região do pericárdio; mais pesquisas são necessárias para determinar se um causa o outro”, acrescentou a professora.

Também indaguei quais seriam as implicações práticas de sua pesquisa para o público em geral. “Nossos resultados são apenas correlacionais, por isso não podemos fazer recomendações para a saúde de uma forma conclusiva. No entanto, estes resultados sugerem que, a fim de reduzir o risco de doença cardiovascular, as pessoas devem reduzir o tempo que passam sentadas, além de, logicamente, terem o hábito de ser fisicamente ativas”, finalizou a Dra. Larsen.

 

 

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