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A incoerência no calendário da Copa das Confederações

Ricardo Guerra

17 de junho de 2013 | 07h47

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Muito tem sido comentado ao longo dos últimos anos sobre a natureza exaustiva do calendário anual de futebol ao redor do mundo. Os campeonatos foram ampliados ocasionando um número maior de equipes. Consequentemente, os atletas jogam cada vez mais a cada ano. Alguns times disputam duas ou até mesmo três competições ao mesmo tempo.

Em tais circunstâncias, alguns jogadores chegam a participar de duas partidas por semana durante várias fases da temporada. Assim sendo, esses atletas certamente encontram dificuldades na capacidade de se recuperarem totalmente entre um jogo e outro. E ainda no final de uma temporada, muitos jogadores ainda são convocados para jogar uma competição a mais como no caso, por exemplo, de uma Copa das Confederações.

Desse modo, a busca de um marcador sanguíneo único, que possa servir como modelo padrão, com o intuito de medir a recuperação dos atletas após o exercício exaustivo ainda está em desenvolvimento, e vem sendo tema de muito debate na área da fisiologia do exercício.

Além disso, em torno da literatura científica, há muita informação sobre o tempo necessário para a reposição do glicogênio – combustível armazenado nas células dos músculos esqueléticos, que serve como fonte de energia para tais músculos, durante esforço físico intenso, como por exemplo, durante uma partida de futebol.

Dessa maneira, é possível que os níveis de glicogênio voltem ao normal dentro de 36 horas após uma partida, se os jogadores seguirem um regime apropriado de alimentação, se tomarem os suplementos ergogênicos adequados e se tiverem tempo suficiente de repouso.

No entanto, a reposição dos níveis de glicogênio é um dos muitos componentes dentro do processo de recuperação de um jogador. Desse modo, vários outros elementos fisiológicos desempenham papel vital no sistema de recuperação, e alguns deles podem levar uma semana ou até mais tempo para serem normalizados, dependendo da carga de esforço físico.

Após o exercício exaustivo, por exemplo, o sistema imunológico é severamente deprimido. Além disso, vários mecanismos neurológicos sofrem alterações que não são totalmente compreendidos, e que também levam tempo para serem totalmente restaurados. Ainda mais, em uma competição onde os jogos são disputados com maior frequência, os jogadores podem sofrer efeitos debilitantes por vários dias ou até mesmo por semanas, incluindo micro rupturas e dores musculares.

Tomemos como exemplo, o calendário atual da Copa das Confederações. Na primeira fase da competição, as diversas seleções jogam uma média de três jogos em menos de oito dias. É muito pouco provável que um jogador já nesta fase da competição possa ter uma recuperação completa em um período tão curto entre as partidas.

Segundo o Dr. Bruce Gladden, fisiologista da Auburn University, jogar três partidas num intervalo tão curto de tempo é um grande desafio para todas as equipes.

Sobre o calendário da Copa das Confederações, na conversa que tive pelo telefone com o Dr. John Ivy, outro fisiologista da University of Texas, ele me disse que o problema da recuperação e o desgaste certamente irá atingir os jogadores ainda mais, e ficará mais evidente nas fases finais da competição, como por exemplo, nas semifinais e na final.

Além disso, o planejamento da tabela da Copa das Confederações atual é tão incoerente, que as duas semifinais da competição estão agendadas para dias diferentes. Portanto, duas das seleções que jogarão na semifinal terão quatro dias de recuperação antes da finalíssima, enquanto que as outras duas equipes terão somente  três dias. Ou seja, vinte quatro horas a mais de descanso em um espaço tão curto de tempo é uma vantagem significativa que pode fazer uma grande diferença.

Quando apontei essa questão ao Dr. Ivy ele me disse que: “De fato, uma das equipes que chegar a final terá uma vantagem clara, pois terá um dia de descanso a mais. Se tivéssemos mais dias entre as semifinais (mesmo sendo jogadas em dias diferentes), e a final da competição, tal vantagem poderia ser minimizada, porém este não é o caso”.

Além do mais, vale a pena mencionar também, que as equipes que fazem parte do grupo A jogam a sua última partida da primeira fase, um dia antes das equipes do grupo B. De tal forma, duas delas jogarão a semifinal com mais um dia de descanso.

De fato, não é a primeira vez que a tabela de um torneio oferece vantagens para uma equipe ou outra.

Na Eurocopa de 2012 a seleção de Portugal tendo jogado sua partida nas quartas de final antes da Espanha, que foi sua adversária na semifinal, ela teve aproximadamente 48 horas a mais para se preparar para a partida. A mesma vantagem teve a Alemanha ao enfrentar a Itália nas semifinais.

“A falta de mais dias para a recuperação entre as partidas será um problema maior para as equipes que não possuírem um elenco constituído por um número de jogadores mais talentosos e de mais alto nível, pois com jogadores suplentes que são limitados tecnicamente, a carga se torna maior para aqueles titulares que são insubstituíveis e que são escalados todos os jogos sem algum tempo de descanso”, segundo o fisiologista Gladden.

Com base nisso, como alguém poderia justificar um calendário de uma competição tão importante como a Copa das Confederações dando uma vantagem tão grotesca para somente uma das seleções que chegará a final? O fato destes erros relacionados ao agendamento das partidas ainda estarem acontecendo é simplesmente uma vergonha. Os organizadores do evento, certamente, demonstram desta forma, pouco conhecimento sobre os conceitos mais rudimentares da fisiologia do exercício e da dinâmica do processo de recuperação dos jogadores.

Muitos destes jogadores na atual competição certamente encontram-se esgotados, pois não devemos nos esquecer que eles acabaram de participar de uma temporada inteira em seus clubes.

Na verdade, um estudo realizado por pesquisadores suecos da Linkoping University examinou a correlação entre a quantidade de partidas que alguns jogadores europeus haviam disputado nos meses que antecederam a Copa de 2002, e o número de lesões, assim como o nível de desempenho deles durante aquele evento. Os pesquisadores observaram que os jogadores que tiveram atuação inferior na Copa do Mundo, de fato tinham jogado mais partidas nas semanas que antecederam a competição, em comparação com aqueles que tiveram um desempenho melhor do que o  esperado. Os pesquisadores também observaram, que quase dois terços dos jogadores que jogaram mais de uma partida por semana durante as últimas 10 semanas da temporada, ora sofreram contusões, ora tiveram um desempenho inferior durante a Copa.

Quando perguntei ao Dr. Ivy sobre o fato dos jogadores estarem disputando a Copa das Confederações após o término de uma longa temporada em seus respectivos clubes, ele afirmou que: “Este problema certamente será ainda maior e mais desgastante para as equipes que tiverem que viajar distâncias maiores até o Brasil, como por exemplo, os países provenientes da África ou da Ásia”.

Por final, agora só nos resta aguardar o desenvolvimento da competição e observar o desempenho de como o calendário afetará a performance dos semifinalistas na grande final. Esperamos que a cúpula que comanda o futebol internacional possa elaborar um calendário mais justo e mais coerente para a próxima Copa do Mundo, pois ainda há tempo para tal possibilidade.

 

 

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