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O calendário do futebol é absurdo e desumano

Ricardo Guerra

28 de junho de 2012 | 06h53

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Muito tem sido comentado ao longo dos últimos anos sobre a natureza exaustiva do calendário anual de futebol ao redor do mundo. Os campeonatos foram ampliados ocasionando um número maior de equipes. Consequentemente, os atletas jogam cada vez mais a cada ano. Alguns times disputam duas ou até mesmo três competições ao mesmo tempo. Em tais circunstâncias, alguns jogadores podem jogar duas partidas por semana durante várias fases da temporada. Assim sendo, esses atletas certamente encontram dificuldades na capacidade de se recuperarem totalmente entre um jogo e outro.

A pesquisa envolvendo a busca de um marcador sanguíneo único, que possa servir como modelo padrão com o intuito de medir a recuperação dos atletas após o exercício exaustivo, está em pleno curso, sendo tema de muito debate dentro do campo da fisiologia do exercício. Além disso, em torno da literatura científica, há muita informação sobre o tempo necessário para a reposição do glicogênio – combustível armazenado nas células dos músculos esqueléticos, que serve como fonte de energia para tais, durante o esforço físico intenso, como por exemplo, durante uma partida de futebol.

Dessa maneira, é possível fazer com que os níveis de glicogênio voltem ao normal dentro das 36 horas após uma partida, se os jogadores seguirem um regime apropriado de alimentação, se tomarem os suplementos ergogênicos adequados e se tiverem tempo suficiente de repouso. No entanto, a reposição dos níveis de glicogênio é um dos muitos elementos dentro do processo de recuperação de um jogador.

Desse modo, vários outros elementos fisiológicos desempenham papel vital no sistema de recuperação, e alguns deles podem levar uma semana ou até mais tempo para serem normalizados, dependendo da carga de esforço físico. Após o exercício exaustivo, por exemplo, o sistema imunológico é severamente deprimido. Além disso, vários mecanismos neurológicos sofrem alterações que não são totalmente compreendidas, e que também levam tempo para serem totalmente restauradas. Ainda mais, em uma competição onde os jogos são disputados com grande frequência, os jogadores podem sofrer efeitos debilitantes por vários dias ou até mesmo por uma semana, incluindo micro-rupturas e dores musculares.

Tomemos como exemplo, o calendário da Eurocopa 2012. Na primeira fase da competição, as diversas seleções jogaram uma média de três jogos em menos de dez dias. Sobre este fato, na conversa que mantive pelo telefone com o Dr. John Ivy, fisiologista de renome mundial da University of Texas, ele me disse que duvidava muito que um jogador seria capaz de ter uma recuperação completa, com tantos jogos em um período tão curto de tempo.

Assim sendo, o planejamento da tabela da Eurocopa atual é tão absurdo, que a seleção de Portugal tendo jogado sua partida de quarta de final antes da Espanha, que foi sua adversária ontem na semifinal, teve aproxidamente 48 horas a mais para se preparar para esta partida. A mesma vantagem terá a Alemanha ao enfrentrar a Itália hoje nas semifinais. Com base nisso, como alguém poderia justificar uma vantagem tão grotesca entre os adversários? Isso não faz sentido e é simplesmente uma vergonha!

Em meio a tal situação, fica evidente que quem organizou esse calendário não tem a menor idéia sobre os conceitos mais rudimentares da fisiologia do exercício. Os organizadores do evento, certamente, mostraram um conhecimento zero sobre a dinâmica do processo de preparação, recuperação e certamente não dão a mínima sobre o bem-estar fisiológico dos jogadores.

Dessa forma, é desumano exigir mais desses jogadores na atual competição, pois muitos certamente encontram-se esgotados, além do que, não devemos nos esquecer que eles acabaram de participar de uma temporada inteira em seus clubes.

Segundo o Dr. Ivy, “O processo de recuperação está interligado e é significativamente mais complexo do que as pessoas imaginam. Eu duvido que a maioria desses jogadores que estejam jogando na Eurocopa deste ano, se encontra fisicamente e mentalmente em sua melhor forma, depois de virem de uma temporada tão desgastante”.

Na verdade, um estudo realizado por pesquisadores suecos da Linkoping University examinou a correlação entre a quantidade de partidas que alguns jogadores europeus haviam disputado nos meses que antecederam a Copa de 2002, e o número de lesões, assim como o nível do desempenho desses durante aquele evento. Os pesquisadores observaram que os jogadores que tiveram atuação inferior na Copa do Mundo, de fato tinham jogado mais partidas nas semanas que antecederam a competição, em comparação com aqueles que tiveram uma performance melhor do que o  esperado.

Os pesquisadores também observaram, que quase dois terços dos jogadores que jogaram mais de uma partida por semana durante as últimas 10 semanas da temporada, ora sofreram contusões, ora tiveram um desempenho inferior durante a Copa. É bem possível que a origem do problema possa estar diretamente ligada ou relacionada à comercialização grotesca e a quantidade de dinheiro exorbitante que gira em torno do futebol.

Em entrevista pelo telefone, o Dr. Tobias Moskowitz, professor de economia da University of Chicago e autor do livro best-seller Scorecasting, alertou-me sobre os fatores econômicos que estão desafiando os limites dos jogadores.

De acordo com o Dr. Moskowitz, “O retorno econômico acaba por promover mais jogos, proporcionando um calendário congestionado. Os torcedores querem assistir o maior número de partidas possíveis, gerando, desse modo, maiores bilheterias. Sem contar o maior número de propagandas de TV. E tudo isso vai se acumulando, e os jogadores não são pagos por partida”.

Na verdade, para os cartolas não importa se os jogadores se sacrificam, jogando uma quantidade excessiva de partidas. O único objetivo é o lucro desenfreado, custe o que custar.

“É bem provável que os cartolas e os jogadores tenham que estar dispostos a aceitar menores recompensas financeiras, para a obtenção de um calendário mais humano”, completou o Dr. Moskowitz.

No entanto, a ganância é tanta, que a troco de qualquer dinheiro, os cartolas que comandam o jogo mais bonito do mundo chegam a tropeçar nos seus próprios erros, a ponto de botarem em curso um calendário patético para uma das competições mais importantes (Eurocopa 2012), chegando a ser motivo de chacota. A incompetência e o descaso desses individuos é alarmante. Entretanto, a paixão das massas pelo futebol mexe com os corações, arranca lágrimas, dando muitas vezes alegria para aqueles que não têm nada, porém, permite que os erros escabrosos desses “organizadores”, passem muitas vezes despercebidos e que eles continuem impunes.

Infelizmente, tais dirigentes ainda têm a audácia de chegar no nosso país para nos dar aula de como organizar uma Copa do Mundo! E com isso, eles continuam denegrindo e desrespeitando a imagem do jogo e tirando vantagem da boa vontade dos torcedores. Está na hora dos jogadores virarem a mesa! Os jogadores unidos jamais serão vencidos!

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