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O desafio para equipes de futebol que jogam dois campeonatos ao mesmo tempo

Ricardo Guerra

28 de fevereiro de 2012 | 04h28

Nos últimos 20 anos, o campo da fisiologia do exercício tem avançado significativamente e tem sido capaz de gerar pesquisas importantes relacionadas com o alto desempenho desportivo. Os treinadores de futebol, muitas vezes, quando comparados com técnicos de outros esportes, como o atletismo, o ciclismo ou o futebol americano, não fazem uso dos conhecimentos da fisiologia do exercício com a mesma frequência.

No entanto, seria difícil encontrar uma equipe no Campeonato Inglês, a vitrine do futebol internacional, em que a presença de um fisiologista do exercício ao lado do técnico não seja um fato constante. Muitas seleções internacionais, como as dos Estados Unidos, Austrália, Holanda e Alemanha, conhecidas por um elevado índice de preparação física, dão grande ênfase ao campo da fisiologia do exercício e às mais recentes pesquisas que saem desta disciplina, com a intenção de melhorarem o seu desempenho. Essas equipes, muitas vezes, são conhecidas por jogarem um futebol mais físico, que pressiona os adversários de forma constante.

Fisiologistas do exercício têm um papel muito importante na metodologia de treinamento de um time de futebol e no controle e aumento da capacidade fisiológica dos jogadores através de diversos métodos. Uma das mais importantes armas à disposição de um fisiologista é o conhecimento de como acelerar a recuperação dos jogadores entre as partidas.

Em uma competição como a Copa América, os jogos são disputados um após o outro e a capacidade de recuperação dos jogadores entre uma partida e outra torna-se um fator fundamental para a sobrevivência e sucesso dentro da competição. Este curto espaço de tempo entre as partidas representa um grande problema para seleções que dão pouca atenção ao campo da fisiologia do exercício e, assim sendo, encontram dificuldades com a recuperação entre partidas. Algumas equipes brasileiras que disputam dois campeonatos ao mesmo tempo, como por exemplo a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro, também se deparam com tal situação.

As várias técnicas utilizadas por um fisiologista, com o intuito de acelerar o processo de recuperação dos jogadores, tornam-se ainda mais importantes dentro dessas competições. Está mais do que bem estabelecido que os 50 minutos depois de um jogo são fundamentais para o processo de recuperação dos jogadores. Durante esse período há uma rara oportunidade em que as células dos músculos esqueléticos estão mais sensíveis e suscetíveis a receberem nutrientes vitais que abastecem significativamente os estoques de glicogênio, o combustível armazenado nos músculos. É possível fazer com que os níveis de glicogênio voltem ao normal dentro das 36 horas após uma partida se os jogadores seguirem um regime apropriado de alimentação, se tomarem os suplementos ergogênicos adequados e se tiverem tempo suficiente de repouso.

Podemos traçar um paralelo entre a forma como funcionam os níveis de glicogênio em nossas células musculares e o nível de gasolina em um tanque de um veículo, sendo o glicogênio o equivalente à gasolina de um carro, que fornece a energia necessária para as contrações musculares. 

Picture_Gas_Pump_Ferrari.jpg 

Você pode ter uma Ferrari na garagem de sua casa, mas ela passa a ser inútil como meio de transporte se estiver com o tanque vazio. Do mesmo modo, uma equipe poderia até possuir onze jogadores com as habilidades de um Pelé dentro do campo, mas eles todos passariam a ser inúteis se tivessem baixos níveis de glicogênio em suas células musculares, pois não teriam a energia necessária para se locomoverem com a intensidade devida.

Assim sendo, qualquer equipe que não esteja utilizando essas técnicas estará certamente entrando em campo com uma grande desvantagem. Hoje em dia, no estado acirrado em que o futebol se encontra, são estes pequenos detalhes que fazem a diferença entre uma vitória e uma derrota. A equipe que faz uso de todas as armas disponíveis é possivelmente aquela que irá vencer.

 

 

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