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O impacto do exercício na gravidez

Ricardo Guerra

20 de agosto de 2012 | 06h19

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Nos últimos Jogos Olímpicos de Londres, atletas do sexo feminino desempenharam performances incríveis e fizeram parte de momentos marcantes cada qual em seu esporte. Na verdade, a participação das mulheres em modalidades esportivas vem aumentando significativamente nas últimas décadas em todo o mundo. Durante o mesmo período, o número de atletas incorporando exercícios aeróbicos durante a gravidez também tem crescido de forma expressiva.

Assim sendo, mais recentemente surgiram importantes investigações científicas examinando o impacto fisiológico de tais atividades durante a gestação. Um número crescente de pesquisadores internacionais na cadeira da fisiologia do exercício vem obtendo conhecimentos e dados pertinentes sobre o assunto. De fato, as conclusões e provas de tais investigações não deixam dúvidas que a prática física moderada desempenhada ao longo da gestação acarreta importantes benefícios em prol da saúde.

Em conversa por telefone, o Dr. Gregory Davies, professor da Divisão de Medicina Materno-Fetal e da Faculdade de Motricidade Humana da Queen’s University no Canadá, destacou os riscos à saúde associados com a falta de atividade física durante a gravidez, que incluem a perda de condicionamento físico, o ganho excessivo de peso materno, um maior risco de diabetes gestacional, a hipertensão induzida pela gestação, o desenvolvimento de outras doenças circulatórias, dores lombares e a deterioração do bem-estar psicológico.

No entanto, a questão do exercício aeróbico praticado com cargas de alta intensidade, ou seja, frequências cardíacas mais elevadas ao longo da gestação, ainda é tema de debate e muita discussão dentro do âmbito da fisiologia do exercício. Muitas atletas de alto rendimento, assim como outras mulheres em geral, optam por continuarem a praticar as atividades físicas durante a gravidez com cargas excessivas. Consequentemente, é muito importante determinar quando tais protocolos se tornam nocivos, potencialmente predispondo o feto a riscos.

A atividade física com programas de alta intensidade pode precipitar alterações cardiovasculares que potencialmente podem comprometer o bem-estar do feto. A hipótese levantada por muitos especialistas, é que o exercício praticado com uma frequência cardíaca elevada durante este período poderia causar uma drástica redistribuição do débito cardíaco (um redirecionamento do fluxo sanguíneo dos órgãos viscerais para a musculatura esquelética), em detrimento das necessidades fisiológicas do feto, ocasionando a hipóxia fetal.

Infelizmente, notamos que há uma falta de estudos que investigam de forma rigorosa o impacto fisiológico da prática do exercício aeróbico com cargas de alta intensidade neste caso específico. Além disso, quase não há estudos examinando o assunto por um período maior. Assim sendo, a informação que temos sobre o tema é de certa forma limitada e pouco conclusiva para que os pesquisadores da área cheguem a um consenso definitivo, sobre exatamente quais devem ser as diretrizes a serem adotadas.

Mesmo assim, em um estudo recente, examinando atletas de alto rendimento durante a gravidez, pesquisadores noruegueses concluiram que o bem-estar fetal pode ser comprometido quando o exercício é praticado de forma extenuante.

Kjell Salvesen, o professor que liderou o estudo, advertiu para não tirarmos conclusões precipitadas sobre os resultados da investigação, pois poucos participantes fizeram parte da mesma.

“No entanto, acredito que as observações constatadas em nosso laboratório são suficientemente alarmantes e merecedoras de pesquisas mais aprofundadas no futuro, com o intuito de averiguar o assunto mais a fundo, não somente em atletas de alto nível, como foi feito em nosso estudo, mas também em outras mulheres que almejam se exercitar durante a gravidez com cargas caracterizadas por intensidades mais altas,” disse ele.

“Assim sendo, durante a gestação as mulheres devem ter cautela quando adotarem cargas mais intensas e não devem se submeter a nenhum protocolo de exercício, cuja intensidade da atividade física ultrapasse 90% da frequência cardíaca máxima maternal,” acrescentou o Dr. Salvesen.

Quando perguntei ao doutor sobre a quantidade de exercício considerada apropriada para as mulheres praticarem durante a gestação, ele afirmou que, “A prática física composta por uma caminhada ou jogging de 4 a 5 dias por semana durante 30 a 45 minutos, caracterizada por uma intensidade durante a qual um bate papo seja possível, é considerada segura e recomendável para todas as gestantes saudáveis.”

Entretanto, é importante notar, que a caminhada e o jogging não são as únicas modalidades disponíveis para aquelas mulheres que procuram os benefícios fisiológicos do exercício ao longo do período de gestação.

Robert McMurray, um renomado fisiologista da University of North Carolina, me disse que durante a gravidez a prática de certos esportes pode ser mais apropriada que outras.

“Eu ainda acredito que a natação é a melhor modalidade esportiva durante esse período por diversas razões: ela é benéfica para o sistema cardiovascular, ela mantém e desenvolve o tônus ??muscular, ela facilita a fluidez do fluxo sanguíneo materno-fetal, e causa menos problemas relacionados ao equilíbrio. A natação também ocasiona uma menor sobrecarga sobre as articulações, e menos riscos relacionados à elevação da temperatura corporal, pois, a água ajuda a dissipar o calor com maior eficiência do que o ar,” afirmou o Dr. McMurray.

Em suma é sempre aconselhável que as mulheres discutam suas práticas físicas e cargas de exercícios com seus médicos. No entanto, para aquelas sem nenhum risco adicional na gestação, um regime de exercícios de intensidade moderada deve fazer parte do seu cotidiano.

Consequentemente, elas devem sempre desempenhar atividades físicas durante a gravidez e se preparar fisicamente para o nascimento do bebê.

“Elas deveriam treinar para tal dia como se fosse as ‘Olimpíadas do Nascimento’, incorporando o exercício em suas rotinas diárias até mesmo durante todo o terceiro trimestre caso seja tolerável,” afirmou o Dr. Davies, que completa dizendo que, “Elas também deveriam seguir os seus programas físicos específicos às necessidades da gravidez da mesma forma que os atletas olímpicos se dedicam para a preparação de uma competição.”

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