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O perigo das viagens longas antes de uma maratona

Ricardo Guerra

21 de junho de 2012 | 06h30

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A participação em esportes como a maratona tem aumentado nas últimas décadas de maneira significativa. Muitos dos atletas participantes neste tipo de competição aderem aos regimes e protocolos intensos de treinamento visando obter uma preparação adequada para o dia da prova. Alguns até chegam a viajar mundo afora, com o objetivo de competir em diferentes eventos.

Em uma série de estudos recentemente publicados no Clinical Journal of Sports Medicine, pesquisadores do Hartford Hospital examinaram a influência que as viagens aéreas exercem sobre o processo de coagulação e fibrinólise (quebra do coágulo), que é induzido pela atividade física em maratonistas. O estudo chegou à conclusão que pode não ser a melhor opção para os praticantes de uma maratona, que eles passem muitas horas sentados em aviões.

A explicação para tal é que, durante o processo de coagulação (parte importante do mecanismo de homeostase, ou seja, equilíbrio fisiológico do corpo), o sangue se torna mais viscoso. Assim sendo, a coagulação impede o sangramento excessivo no caso de uma ferida ou corte profundo. Nas pessoas saudáveis, os coágulos são constantemente renovados e destruídos durante o processo com o intuito de manter o equilíbrio hemostático. Para tanto, sabe-se que a atividade física, tal como a maratona, promove a ativação do sistema coagulatório. No entanto, tal aumento da coagulação é geralmente acompanhado concomitantemente pelo desencadeamento da fibrinólise.

Porém, as viagens aéreas estimulam de forma ainda maior o sistema coagulatório. Na verdade, qualquer viagem de 04 ou mais horas (seja de ônibus, trem, carro ou avião), a qual existe grande nível de imobilidade, em virtude das pessoas ficarem sentadas por longo tempo, aumenta o risco de coágulos em quase duas vezes mais. Portanto, é possível que o excesso de carga física tal como a participação em uma maratona, juntamente com viagens prolongadas, possam vir a aumentar o risco da formação de coágulos no sangue. De fato, vários casos documentados de Trombose Venosa Profunda – TVP  (coagulação de sangue nas veias profundas das pernas), e a Embolia Pulmonar – PE (coagulação de sangue nos pulmões), condições que são relacionadas com a formação patológica de coágulos, foram relatadas em corredores saudáveis, que fazem viagens aéreas constantes para as competições.

Em outras palavras, o sangue precisa passar de forma não interrompida através das artérias e veias, a fim de cumprir com as funções básicas do organismo. Poderíamos comparar o sistema circulatório a um agrupamento de mangueiras múltiplas interconectadas (como se fossem rodovias interligadas), que necessitam estar prontamente livres de qualquer obstáculo para proporcionar um fluxo livre de trânsito. Uma interrupção em tal fluxo, causado por um coágulo de sangue nas pernas, por exemplo, poderia causar à inflamação e o inchaço impedindo que o sangue retorne para o coração. Assim, de forma semelhante, um coágulo nos pulmões impossibilitaria que o sangue obtenha a oxigenação necessária durante a respiração.

Um estudo conduzido pela Dra. Beth Parker examinou 41 adultos que participaram da 114ª Maratona de Boston, incluindo um grupo que voou mais de quatro horas e outro que vivia próximo daquela localidade. Os resultados do estudo mostraram que viagens aéreas aliadas à participação numa corrida de maratona induzem um estado agudo hipercoagulante.  Foi constatado que tal desequilíbrio hemostático é agravado com a idade. Além disso, alguns dos atletas participantes no estudo conduzido pela Dra. Parker obtiveram índices elevados de um marcador sanguíneo valioso (D-Dímero), que é utilizado para excluir o diagnóstico de trombose venosa profunda.

Os resultados do estudo têm importantes implicações práticas para determinados grupos de corredores.

Em uma conversa ao telefone, a Dra. Parker explicou as principais aplicações práticas de seu estudo e pesquisa ao dizer que: “Maratonistas com uma história familiar de TVP e EP, e aqueles com problemas patológicos relacionados à coagulação, assim como corredores mais velhos e mulheres usando contraceptivos à base de estrogênio, deveriam optar por tomar certas medidas de precaução quando estiverem fazendo uma viagem para as maratonas”, a Dra. Parker ainda afirmou que: “Evitar ficar parado por um longo tempo, não vestir roupas apertadas em torno da coxa, manter-se bem hidratado e utilizar meias elásticas com a devida compressão que ajudem a circulação sanguínea das pernas, evitando assim o refluxo sanguíneo, são algumas das precauções aconselháveis. ”

Quando lhe perguntei se seria aconselhável estender essas medidas de precaução para outros grupos de corredores, ela disse que tais procedimentos não seriam necessários e nem justificáveis. Mesmo assim, alguns maratonistas poderiam optar por seguir algumas das medidas de precaução da Dra. Parker a caminho de uma corrida, mesmo que estes corredores não fizessem parte dos grupos de risco. Enquanto que outros poderiam optar por utilizar todas essas informações como pretexto para não ter que fazer longas viagens, e apenas participar das provas de maratonas locais.

 

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