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Qual a relação entre o exercício, o tamanho dos seios e o câncer de mama?

Ricardo Guerra

09 de dezembro de 2013 | 07h00

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Os benefícios para a saúde decorrentes da prática regular de atividade física estão mais do que comprovados. Consequentemente, uma grande variedade de estados patológicos poderia ser combatida, e até mesmo evitada, com uma caminhada ou uma corridinha no dia a dia.

Portanto, o exercício físico regular é conhecido por reduzir o risco de câncer de mama em cerca de 25%. Esta estimativa é baseada em estudos que registraram o número de horas por semana, nos quais as mulheres passaram se exercitando e fazendo outras atividades físicas.

Agora, os resultados decorrentes de um estudo (National Runners’ and Walkers’ Health Studies), publicado hoje na revista científica Public Library of Science One, chegaram à conclusão de que os benefícios de cumprir as recomendações atuais de prática física regular podem ser ainda maiores.

Em conversa pelo telefone, solicitei ao Dr. Paul Williams, pesquisador do Lawrence Berkeley National Laboratory (que está vinculado à Universidade da Califórnia), que comentasse sobre a importância e a validade do seu estudo: “Ao contrário de outros estudos que analisaram a população em geral, nós examinamos especificamente as corredoras e as praticantes de caminhadas,” explicou. “De acordo com as observações de nossa pesquisa, concluímos que o exercício reduziu o risco de mortalidade do câncer de mama em 40%.”

Assim sendo, os pesquisadores analisaram a mortalidade por câncer de mama em 79.124 mulheres durante 11 anos, após a inicial pesquisa de base (as quais não possuíam um histórico desse tipo de câncer antes de participar no estudo). As participantes relataram as distâncias que andavam ou corriam em cada semana.

Na verdade, prevê-se que mais de 232.000 casos de câncer (invasivo) de mama sejam diagnosticados nos Estados Unidos em 2013. De fato, naquele pais as taxas de mortalidade de câncer de mama nas mulheres são as mais elevadas depois do câncer de pulmão.

Contudo, as tentativas de compreender melhor os mecanismos fisiológicos potencialmente responsáveis pela  proteção que o exercício exerce contra o câncer de mama estão em pleno curso e são frequentemente debatidas. Assim sendo, querendo obter uma explicação mais concreta, eu perguntei ao Dr. Williams qual seria a suposição mais plausível: “Nós não temos certeza sobre o mecanismo fisiológico responsável pela proteção resultante da atividade física, mas ele pode estar relacionado com o fato de que as mulheres que se exercitam regularmente podem ter níveis mais baixos de estrogênio. Níveis elevados de tal hormônio são considerados um fator de risco para o desenvolvimento do câncer de mama.”

Além disso, o Dr. Williams também analisou a possibilidade das mulheres fisicamente ativas com seios maiores (corredoras e praticantes de caminhadas), possuírem risco maior de mortalidade por câncer de mama. Desse modo, no estudo conduzido pelo pesquisador norte-americano, as mulheres declararam o tamanho do seu sutiã, juntamente com o seu peso corporal total e altura, bem como outros fatores de risco estabelecidos.

O professor relatou que, comparando às mulheres que usam tamanho A (aproximadamente tamanho pequeno no Brasil), com as que usam tamanho C (cerca do tamanho médio), estas tinham indícios de mortalidade por câncer de mama quatro vezes maior, e aquelas com tamanho D (aproximadamente tamanho grande ou maior), tinham o risco mais alto de todas (4,7 vezes a mais).

“Mulheres desportistas magras e com seios maiores podem ser as que correm o maior risco de mortalidade por câncer de mama, pois seios maiores podem conter menos gordura e mais células epiteliais que podem se tornar cancerosas,” afirmou o investigador.

O Dr. Williams também enfatizou pelo telefone que mulheres com maior densidade, ou seja, maior teor do tecido conjuntivo na região das mamas, correm riscos mais elevados de desenvolver este câncer, pois possuem menor teor de gordura naquela localidade que pode na verdade acarretar benefícios protetores contra a doença.

“Contudo, níveis elevados de estrogênio são considerados um fator de perigo para o desenvolvimento do câncer de mama, e tem sido documentado que mulheres com seios maiores têm níveis de estrogênio significativamente mais altos… Além disso, a ameaça de câncer de mama também pode estar relacionada com questões genéticas. Em um estudo foi demonstrado que alguns destes genes relacionados a um maior volume dos seios também foram associados a um maior risco desse tipo de câncer”, acresecentou o Dr. Williams.

Uma vez mais, querendo aprofundar o assunto, perguntei ao professor qual seria o rumo da pesquisa em tal área: “Queremos acompanhar essas mulheres por um prazo maior. Num futuro próximo, também gostaríamos de acrescentar outros métodos de quantificação e análise mais aprofundados para determinar se os resultados afetam o desenvolvimento do câncer de mama ou não, e se a prática do exercício e o tamanho dos seios aumentam a chance de sobrevivência entre as pessoas que já têm essa doença.”.

No final da nossa entrevista, perguntei ao Dr. Williams quais eram as implicações práticas de suas observações, e quais dicas ele poderia dar para a saúde em geral e o bem-estar de cada indivíduo. De forma sucinta, ele disse que as pessoas devem se informar e seguir as recomendações dadas para a prática de atividade física pelas suas respectivas organizações de saúde: por exemplo, praticar o equivalente a 7 ou mais km de jogging por semana pode trazer beneficios e fica perto do que é geralmente recomendado.

 

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