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Quando as quadras agridem os tenistas

Ricardo Guerra

20 de fevereiro de 2013 | 05h31

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Na semana passada, o tenista espanhol Rafael Nadal criticou a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) por não fazer o suficiente para proteger a saúde dos jogadores. O atleta de 26 anos afirmou que as quadras exigem demasiado do corpo dos jogadores e é muito complicado evitar lesões durante a carreira.

“As quadras duras são agressivas para nossas articulações, costas, tornozelos e joelhos. Não imagino jogadores de futebol jogando sobre o cimento. O tênis é o único esporte que comete este erro e acho que não vai mudar, pelo menos não na minha geração. A ATP se preocupa muito pouco com os jogadores”, disse o espanhol durante  uma entrevista coletiva que antecedeu sua estréia no Brasil Open, na semana passada, no Ginásio do Ibirapuera.

A questão de como diferentes tipos de piso estão relacionados com o risco de lesões é tema de muito debate no meio esportivo. No passado, vários investigadores examinaram diversos tipos de superfícies desportivas  (grama natural, saibro, acrílico, etc.), a fim de determinarem o risco de contusões decorrentes de cada uma delas. No entanto, a maioria desses estudos foi apenas executada nas modalidades de futebol e de futebol americano.

É importante salientar que o assunto não é tão simples como muitos imaginam. No caso da prática do jogging, por exemplo, seria um grande desafio encontrar evidências científicas claras de que uma superfície menos dura poderia beneficiar mais os corredores. De fato, há uma falta de estudos escrupulosamente controlados, implementados com métodos rigorosos, que observem um número significativo de corredores sobre solos mais e menos rígidos, com o objetivo de constatar e determinar os índices de danos no sistema músculo-esquelético.

Contudo, a situação do tênis pode muito bem ser completamente diferente. Na verdade, as reivindicações de Nadal podem ter algum mérito. O Dr. Benno Nigg, professor de biomecânica, da University of Calgary, mundialmente conhecido, realizou um estudo de referência há quase 30 anos, comparando a frequência de lesões em diferentes tipos de superfícies de quadras de tênis.

“Os resultados do meu estudo demonstraram que, em comparação com o saibro, os pisos de cimento ou de outras superfícies artificiais que não permitem o deslize, ocasionam de 3 a 5 vezes mais contusões… Demonstrando um aumento destas de 300 a 500 por cento”, afirma o Dr. Nigg.

Em entrevista pelo telefone, ele também me disse que um determinado piso artificial utilizado em seu estudo (composto por areia artificial em seu topo e com características semelhantes aos de saibro) apresentou menores índices de lesões, aproximando-se assim dos resultados encontrados nos pisos de saibro convencionais.

“A conclusão principal do meu estudo é que, quando você permite o deslize, você tem uma situação em que a força exercida sobre o corpo humano é reduzida e, portanto, a frequência das lesões diminui”, acrescentou o Dr. Nigg.

Um artigo publicado nos últimos dois anos na revista científica Sports Medicine fez uma revisão da literatura científica sobre o impacto das diversas superfícies, nas quais diferentes esportes são praticados, e sobre os índices de lesão, e concluiu que no tênis o piso de saibro é significativamente mais seguro do que a grama e outros pisos mais duros. Entretanto, os pesquisadores da Stanford University que realizaram tal averiguação advertiram que chegaram a essa conclusão com dados limitados.

Muitos são da opinião que os torneios devem ocorrer com maior frequência em pisos de saibro, a fim de minimizar as possíveis lesões. Alguns argumentam mesmo que as partidas de tênis devem ser proibidas nas quadras de cimento. Outros acreditam ainda que os torneios devem alternar entre as diferentes superfícies, com o intuito de minimizar os riscos de danos no sistema músculo-esquelético .

No entanto, a ideia de alternar os torneios entre as diversas superfícies deve ser examinada com mais atenção. Na verdade, muitos argumentam que qualquer mudança de um piso menos rígido para outro mais duro, ou vice-versa, deve ser feita com muita cautela.

O Dr. Nigg afirma que “sempre que há uma mudança de piso na prática do esporte, há alterações na coordenação motora de um atleta, o que pode aumentar o risco de lesões. Um estudo realizado com jogadores de futebol na Escandinávia demonstrou que a maioria das lesões ocorrem em certas temporadas do ano em que o clima requer a mudança de localização (interior ou exterior), da prática das modalidades esportivas. Assim sendo, é possível que a mudança repentina de piso também possa aumentar os riscos de lesões.”

Deste modo, concluímos que o risco de lesões pode aumentar porque nossos corpos tornam-se biomecanicamente acostumados ao recrutamento de certas unidades motoras e, consequentemente, quando há uma mudança para uma superfície diferente, esses mecanismos são alterados, tendo assim que se adaptar a condições com que temos pouca familiarização neuromuscular.

“Os jogadores e os atletas devem se acostumar gradualmente ao novo piso em que estão jogando”, disse o Dr. Nigg.

Quando lhe perguntei se a ATP deveria minimizar ou banir totalmente a prática do jogo em superfícies rígidas, ele me disse que preferia não especular sobre o que a organização deveria fazer. Ele finalizou sua declaração afirmando que o seu trabalho é apenas o de apresentar os fatos. Assim sendo, será que a ATP continuará a ignorar tais fatos? Tudo indica que sim e tudo indica que Nadal tem toda a razão.

 

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