Amigos da aventura, tô de volta!

Amigos da aventura, tô de volta!

Ricardo Ribeiro

07 de janeiro de 2015 | 21h42

Vários colegas das redes sociais que estão acompanhando o blog me perguntaram como me envolvi com ralis. Então resolvi contar. A história é longa, mas vou resumir o máximo possível. Espero que sirva de incentivo e inspiração de alguma maneira.

Sonhar faz bem. Correr atrás dele é melhor ainda!

 

Com os amigos do exército da Mauritânia, perto da fronteira com o Marrocos, na África

Com os amigos do exército da Mauritânia, perto da fronteira com o Marrocos, na África



Era uma vez…

O cenário da minha história é a deliciosa cidade de Marília, no interior paulista. Eu era adolescente e queria montar uma equipe de bicicross. Sem a menor experiência e grana, além de não ter um “paitrocínio”, a única coisa que me restava era visitar as lojas de equipamentos de moto e bike e ficar babando nas novidades: luvas, capacetes, joelheiras e mais aquele monte de bugiganga.

Numa dessas idas à loja, o que era rotina de um jovem desocupado no interior, uma edição da revista Duas Rodas na mesinha da recepção me chamou a atenção. Tinha uma foto belíssima de uma moto rasgando as dunas do deserto do Saara, na África.

Aquele monte de areia era enorme, infinito, uma paisagem de outro planeta. Realmente parecia algo de outro mundo. Nas páginas seguintes, mais motos, imagens de pilotos acabados, cansados, esgotados. Mas também muitas histórias de superação, força de vontade.

Uau, que coisa mais louca essa competição. Como chama?

Muito prazer. Dacar! Rally Paris-Dacar…

Essa é a

Essa é a “Pedra do Elefante”, no deserto da Mauritânia. Chegamos lá no helicóptero da organização. Quilos e mais quilos de equipamento dentro do colete. Foto: Gigi Soldano


Primeiro emprego
Anos se passaram, criei juízo e abandonei a ideia de montar uma equipe de bicicleta.

Virei boy de uma concessionária de caminhões Volkswagen, depois vendedor de consórcio de Vespa e em seguida me envolvi com imprensa, vendendo assinaturas do jornal Diário de Marília. Dalí pra redação foi um pulinho. Fui fotógrafo, repórter, editor por um bom tempo.

Muitos anos depois, mudei sozinho pra São Paulo fazer faculdade de Jornalismo…

Mas aquelas fotos estampadas em várias páginas da revista Duas Rodas ainda me perturbavam. O deserto do Saara não saía da minha cabeça.

Minha primeira largada

Em novembro de 1994, com 23 anos, depois de trabalhar na equipe de comunicação das campanhas de José Serra para o Senado e Mário Covas para o governo paulista, embarquei de férias para um mochilão na Europa. Não conhecia o exterior, não falava absolutamente nada de inglês ou de qualquer outro idioma, mas vamos nessa com a cara e coragem.

Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, Itália, Espanha, França… aquele roteiro básico de marinheiro de primeira viagem pelo Velho Mundo.

Quase dois meses depois, dias antes do natal, eu estava em Roma com o saco bem cheio e a carteira bem vazia. Vi na TV uma matéria sobre os italianos que correriam o Dacar. Era a senha. Lembrei das fotos da Duas Rodas…

No auge da minha insônia, tive uma ideia que mudaria minha vida e minha carreira profissional: “Pô, a largada do Dacar é daqui três dias. Vou pra Paris ver esse negócio de perto!”


Peito estufado

Antes de pegar o trem no dia seguinte, liguei para o escritório dos pilotos Klever Kolberg e André Azevedo em São Paulo. Falei com a Fernanda, então assessora de imprensa da dupla brasileira.

Estufei o peito e disse em alto e bom som: “Meu nome é Ricardo e sou correspondente do jornal Diário de Marília (oi??), em Roma. Estou indo pra Paris acompanhar a largada do Dacar. Preciso do endereço do hotel do Klever Kolberg e do André Azevedo para fazer uma entrevista!”.

Funcionou!

A base dos brasileiros era em Saint-Germain-En-Laye, uma pequena cidade de 40.000 habitantes a oeste de Paris, local de nascimento do rei Luís XIV e repleta de bosques de carvalho com mais de 400 anos. Dois dias depois eu já estava lá.

Me hospedei no mesmo hotel e deixei recado na portaria. Tarde da noite batem na porta do meu quarto e eram eles, Klever e André. Na minha avaliação, uns heróis. Afinal, eu já sabia que o Dacar não era pra qualquer um.

Os dois me trataram com o mesmo entusiasmo e atenção como se estivessem sendo entrevistados pelo Estadão, The New York Times, TV Globo, CNN ou qualquer outro grande veículo de mídia. Mas eu era um garoto abusado, “correspondente internacional” de um pequeno (mas importante) jornal do interior paulista.

Aliás, a dupla sabia muito bem a importância da imprensa nesse processo todo e não media esforços para conquistar espaços na mídia, seja em um jornal desconhecido ou no Le Monde ou Figaro.

Fiz entrevistas com os brasileiros, escrevi sobre os países do roteiro (França, Espanha, Marrocos, Mauritânia e Senegal), fiz análises sobre a corrida, estatísticas e etc.

Enfim, André e Klever seguiram cuidando dos últimos detalhes antes da largada promocional em Paris, no Trocadero, em frente à Torre Eiffel.

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De Paris a Granada… de trem!

Me despedi deles e de mais dois jornalistas que acompanhariam a competição até o final (que inveja!), Moraes Eggers, pela revista Quatro Rodas, e João Mendes, com o objetivo de levar uma picape Ford F-1000 até Dakar ao lado de Luizão Azevedo e fazer imagens para TV.

Quero ir também!

Sem compromissos no Brasil, resolvi, na mesma noite, pegar um trem de Paris até Granada, no sul da Espanha. Não lembro o tempo exato, mas a viagem parecia interminável.

Para resumir: fiquei babando em todos aqueles carros, motos, caminhões e equipes de apoio milimetricamente expostos na avenida principal da cidade espanhola. Era véspera de réveillon e eles partiriam no dia seguinte.

A caravana do Dacar seguiu para o Mediterrâneo e depois tudo foi de navio até o Marrocos. E eu voltei pra Marília.

Mas as fotos da Duas Rodas ainda me perturbavam (continua…).

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