Brasileiro narra drama no Dacar

Ricardo Ribeiro

15 de janeiro de 2015 | 10h14

André Suguita fala de forma articulada. Pensa em cada frase antes de abrir a boca. Com 34 anos, estudou na USP (Universidade de São Paulo) e na Fundação Getúlio Vargas, mas preferiu se formar pela última. Hoje trabalha em um grande banco de investimentos, o Merril Lynch, que faz parte do Bank of America Corporation.

Sem celular

Pela tela do seu computador, no escritório em São Paulo, onde os funcionários não podem usar celular, passam números enormes, com um monte de zeros à direita. Para não perder dinheiro, ele precisa tomar decisões rápidas e certeiras. Não pode errar. E é com esse pensamento que este paulista, casado e pai de uma garotinha que vai completar dois anos, pilota um quadriciclo Can-Am Renegade no Rali Dacar.

Participar da prova era um sonho. Ele se inspirava assistindo DVDs sobre a maior prova off-road do planeta. Antes, correu seis vezes o Rally dos Sertões e se preparou (e juntou dinheiro) sonhando com o Dacar.

Sem pretensões (?)

Suguita diz não ter grandes pretensões e nem pensa em ficar nesta ou naquela posição. “Quero só completar a prova e me tornar o primeiro brasileiro a conseguir essa façanha nos quadriciclos. Estou aqui para me divertir”, diz. Sim, ele tem pretensões. Só quer entrar para a história de um dos maiores e mais importantes eventos do mundo. Só…

Evolução e abandonos

Suguita vem evoluindo a cada dia na prova. No primeiro dia, terminou em 44º lugar. Atrás dele, apenas mais um concorrente. No dia seguinte, em tremenda evolução, completou a etapa em 23º.

Depois em 21º, 14º, e o mais recente, nesta quarta-feira (14), o 11º lugar, entre Calama (CHL) e Cachi (ARG). A categoria quadriciclo é a que mais tem abandonos. Dos 45 que largaram em Buenos Aires, mais da metade já voltou para casa. Hoje são apenas 21 correndo. Manter-se na corrida, dia após dia, já é uma grande vitória.

Personagem mundial

Com inglês fluente e ótima comunicação, foi um dos escolhidos pela organização para ser personagem do programa especial “My Dakar”, onde os estreantes, munidos de uma câmera GoPro, mostram ao mundo a experiência deles na competição.

Até agora, tudo parece um conto de fadas, no mais perfeito formato de histórias legais que todos querem contar sobre um piloto estreante no Dacar. Mas nem tudo são flores nos caminhos e trilhas de André Suguita…

Almoço com amigos

Durante o descanso em Iquique, no sábado passado, o dia foi de confraternização e para colocar o papo em dia com outros competidores e com outros brasileiros que vieram para ver a prova. Foi o caso da família Varela, que tem várias participações em ralis. Suguita chegou na roda e logo começou a mostrar os hematomas, resultados de um tombo com o quadriciclo. Contou como foram as últimas etapas e seus perrengues.

Quadri não andava

Na situação mais complicada, narrou como o quadriciclo entrou em “modo de segurança” – sistema de proteção que indica que algo está errado com o veículo e a potência fica reduzida. “Não passava de 3.500 giros. Não dava nem para subir um morro, se necessário”, contou.

Suguita não sabia onde estava o problema. Mexeu em todas as rebimbocas possíveis e nada. Pegou o telefone via satélite e ligou para a mãe, que fez a ponte de comunicação com a equipe e os mecânicos. Não adiantou.

Situação tensa

A situação começou a ficar tensa. O sol derretia os miolos em pleno deserto. Mexe aqui, mexe ali, e nada. Um carro chega perto e oferece uma carona no reboque até a estrada mais próxima. Proposta tentadora naquela situação desanimadora, mas “não, obrigado”. “Vou tentar mais. Se fosse rebocado, estaria fora da competição e o sonho de completar o Dacar seria adiado”, relata.

André estava esgotado, cansado: antes havia sofrido uma queda e teve problemas com a bomba de gasolina dos tanques. Também havia caído. Enfim, estava dando tudo errado naquele dia. Também já tinha tentado “resetar” o quadri, desligando os cabos da bateria. O mesmo que fazemos quando algum equipamento eletrônico dá pau.

Sombra e cabeça fresca

Resolveu descansar sentando ao lado do quadriciclo, onde havia sombra. Olhando para o veículos, tentando imaginar onde estava o problema, percebeu uma pequena peça, minúscula, chamuscada. Era a única alternativa que restava. Trata-se de um sensor. Ele simplesmente tirou a peça e a colocou de volta. “Liguei o quadri, acelerei e o motor foi a 8.000 giros!”, disse aos amigos, entusiasmado.

Pulando de emoção

Ele ficou tão emocionado que comemorou jogando as ferramentas para o alto. Gritou, pulou e se emocionou. Agora ele tinha como voltar para o acampamento. O relógio já marcava quase 9 da noite…

Nem que me paguem

“Sabia que era difícil. Mas nem tanto. Não imaginava como seria. Não volto nunca mais. Nem que me paguem!”, garantiu.

Reinaldo Varela, experiente piloto do Sertões e do próprio Dacar, encerrou o desânimo momentâneo de Suguita: “E aí, André. Já fez a inscrição para o Dakar 2016?”.

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