Exclusivo: “Time Brasil no Dakar 2019” terá 11 pilotos e navegadores no Peru

Exclusivo: “Time Brasil no Dakar 2019” terá 11 pilotos e navegadores no Peru

Ricardo Ribeiro

16 de dezembro de 2018 | 15h20

Um deles tem medo da mulher…

E o maior medo do gaúcho que adora arroz, feijão, ovo frito e carne moída, “tudo misturado”, é perder a consciência. Outro teme a morte, e, se fosse presidente do Brasil, privatizaria tudo e prenderia 100% dos corruptos.

O mais experiente de todos é craque em comida da fazenda (pelo menos nos negócios!). Tem mais de 375 provas na carreira, todas devidamente catalogadas em uma planilha de excel. Dessas que participou, venceu 117. É bicampeão mundial de rali cross country e bicampeão do Rally dos Sertões, nos Carros, e campeão do Dakar nos UTVs.

Da esq. para dir.: Marcos Baumgart, Reinaldo Varela, Gustavo Gugelmin, Cristian Baumgart, Beco Andreotti, Kleber Cincea e Lourival Roldan. Na foto faltam ainda a dupla Bruno Varela e Maykel Justo e Marcos Colvero e Lincoln Berrocal. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Conheceu a mulher, Nani, mãe dos três filhos (todos pilotos), em uma prova de rali na romântica cidade de Gramado (RS), em 1985. Nome da fera? Reinaldo Varela, 59 anos de idade.

Outro piloto que vai representar o Brasil sonhava tanto em participar de um Rally Dakar que aos oito anos de idade desenhou um carro de competição no deserto de Saara, quando a prova ainda era na África.

Sem contar os torcedores do São Paulo Futebol Clube, do Corinthians e do Internacional. Tem fã de música sertaneja e também do melhor e puro rock’n roll.

Tem joalheiro, empresário, administradores de empresas, dono de construtora, analista de sistemas, engenheiro e industrial. E tem também um garoto de apenas 22 anos estreante no Dakar que já pilota como gente grande, com troféus na estante que causam inveja a qualquer marmanjo.

UTV de dupla brasileira em duna no Peru durante o Rally Desafio Inca. Foto: Divulgação X-Rally Team

Esse é um pequeno raio-x dos 11 brasileiros que vão levar a bandeira do país para tremular na mais importante e emblemática prova off-road do planeta, o Rally Dakar, que começa dia 6 de janeiro em Lima, no Peru. Serão 10 dias de competição, com chegada também em Lima, depois de 5.000 quilômetros, dia 16.

Aliás, a competição mais cobiçada por competidores, patrocinadores e imprensa do mundo todo será 100% no país vizinho – fato inédito na história do evento, que tem mais de 40 anos.

O número de brasileiros em 2019 é considerado bastante expressivo em relação aos anos anteriores. Dois pilotos vão correr na categoria Motos e 9 pilotos e navegadores vão nos UTVs, que é uma espécie de buggy (saiba como essa categoria nasceu no Brasil).

(Como é a disputa pela categoria nos bastidores entre CBA e CBM).

Nas motos, são eles:

Marcos Colvero (KTM 450)

Marcos Colvero, gaúcho, vai disputar o Rally Dakar pela primeira vez na categoria Motos. Foto: Fotop/Divulgação

Gaúcho nascido em Santa Maria, 46 anos, torcedor do Internacional, empresário do setor imobiliário e sócio da RottaEly, uma das principais construtoras e incorporadoras de Porto Alegre. Já correu várias provas no Brasil, como o Rally dos Sertões. A mulher e o filho mais velho também praticam off-road nas motocicletas. É estreante no Dakar e odeia cozinhar, mas ama de paixão aquele mexidão de arroz, feijão, ovo frito e carne moída.

Lincoln Berrocal (KTM 450)

Lincoln Berrocal, piloto de moto que vai participar do Dakar pela primeira vez. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Nasceu em Curitiba, 60 anos, empresário e fabrica jóias. Como o compatriota Colvero, também vai correr o Dakar pela primeira vez. Os dois representantes do Brasil em duas rodas têm manias e superstições parecidas: Marcos só entra em avião e em reuniões importantes com o pé direito e Lincoln veste sempre a bota direita primeiro antes de subir no moto! Lincoln e Marcos vão correr com motocicletas KTM 450 cilindradas.

Os outros nove brasileiros vão correr entre os UTVs, a categoria que mais cresce no mundo das provas off-road e vai dominar as competições em poucos anos, na minha opinião.

Nesta categoria o Brasil estará muito bem representado, com uma galera cheia de títulos no Brasil e no mundo, inclusive no Dakar e no Rally de Sertões.

Reinaldo Varela e Gustavo Gugelmin (Can-Am X3)

Reinaldo Varela (dir) e Gustavo Gugelmin vão tentar o bicampeonato do Rally Dakar na categoria UTVs. Foto: Ferraz/Fotop

Atuais campeões do Dakar na classificação geral dos UTVs vão defender o título com um Can-Am Maverick X3, da marca canadense BRP. Ambos são formados em administração de empresas e empresários. Varela nasceu em São Paulo e é presidente da rede de restaurantes Divino Fogão, que tem cerca de 190 unidades em shoppings de todo o país.

Reinaldo tem mais de 375 provas na carreira de piloto, que incluem o Rally Universitário, onde estreou em 1982. Em uma delas, aliás, correu com um VW Gol alugado. E três anos depois, em Gramado, nas serras gaúchas, conheceu a até então espectadora, Nani.

Gugelmin, que é parente distante (acho que nunca se viram na vida) do Maurício Gugelmin, ex-piloto da Fórmula 1, atua no setor de importação de peças, equipamentos e acessórios 4×4, para competições off-road. Gustavo também embarca para Lima com o peso de defender o título nos UTVs. “O Dakar é a Fórmula 1 do rali e o mais difícil desafio do mundo! Nele você supera três fatores: pessoal, profissional e físico”, diz o navegador de Reinaldo Varela, que desde a infância assistia vídeos do Dakar, ainda na África.

Bruno Varela e Maykel Justo (Can-Am X3)

Bruno Varela, de apenas 22 anos, vai estrear no Dakar. Ele já é campeão do Rally dos Sertões e Merzouga Rally, no Marrocos. Foto: Doni Castilho/Fotop

 

Bruno é filho caçula de Reinaldo Varela, irmão de Rodrigo e Gabriel, e é o mais novo entre os 11 brasileiros no Dakar 2019. Tem apenas 22 anos e já acumula no currículo vitórias importantíssimas mesmo com pouca idade. É campeão do Rally dos Sertões na classificação geral dos UTVs (2017) e faturou o título no Merzouga Rally, no deserto do Marrocos, na África, em 2018. Foi o piloto mais novo a vencer as duas provas na história.

Cauteloso, diz que a maior expectativa no Dakar 2019 é “apenas terminar” a prova. Também vai com um UTV Can-Am Maverick X3. É estudante e empresário.

 

Da esq. para a dir.: Maykel Justo, Bruno Varela, Gustavo Gugelmin e Reinaldo Varela. Foto: Sanderson Pereira/Arquivo Pessoal/Divulgação

Fã do pai e de Ayrton Senna, apaixonado por churrasco, pelo Corinthians, por AC DC e pelo escocês Angus McKinnon Young, ou apenas Angus Young, uma das lendas da guitarra do rock’n roll, Maykel Justo será o navegador de Bruno Varela. É a primeira vez que os dois correrão juntos.

Maykel tem muita experiência neste tipo de prova, com participações em sete Rally Dakar, sendo dois na África e cinco na América Latina. A estreia na maior prova do mundo foi na categoria Caminhões com André Azevedo, da equipe Petrobras Lubrax. Passou a gostar de rali acompanhando as participações de André e Klever Kolberg desbravando o deserto do Saara.

Cristian Baumgart e Beco Andreotti (Can-Am X3)

Cristian Baumgart (dir) e Beco Andreotti vão estrear no Dakar com UTV Can-Am X3. Foto: Vinícius Ferraz/Fotop

O publicitário e empresário Cristian Baumgart sonha em correr o Dakar desde criança e sempre acompanhou a prova pela TV e internet. Tem três títulos de campeão do Rally dos Sertões nos Carros ao lado do fiel escudeiro Beco Andreotti e já disputou várias provas no Brasil e na África. Ele pode até acelerar a quase 200 km/h em estradas de terra nos ralis, sem saber o que tem pela frente, mas não convide Cristian para saltar de paraquedas. “Isso eu não curto e não tenho a menor vontade…”

O navegador Beco Andreotti sonha em correr o Dakar desde 1998, quando participou de um rali pela primeira vez. Experiente, tem no currículo os três títulos do Sertões ao lado de Cristian – ambos farão a estreia no Dakar pela equipe X-Rally Team.

Beco é formado em ciências econômicas e pratica mais três esportes além do rali: wakeboard, natação e golfe. É fã de Senna, do golfista Tiger Woods e torcedor do São Paulo Futebol Clube. Um dos “pontos baixos” da carreira como navegador foi passar o aniversário no meio da trilha. Diz que o maior defeito é a ansiedade e considera a persistência como a melhor qualidade.

Medos? O medo da morte.

E se fosse presidente do país, Beco Andreotti venderia as estatais e mandaria para a cadeia todos os ladrões do colarinho branco.

Marcos Baumgart e Kleber Cincea (Can-Am X3)

Marcos Baumgart (dir) e Kleber Cincea vão enfrentar o Dakar pela segunda vez. Deixam o carro de lado e vão de UTV. Foto: Vinícius Ferraz/Fotop

Também de UTV Can-Am X3, Marcos Baumgart e Kleber Cincea vão participar do Dakar pela segunda vez. Em 2013 eles estrearam na categoria Carros, mas tiveram que abandonar depois de um capotamento que comprometeu o motor do Mitsubishi.

Marcos é irmão de Cristian, tem 41 anos, é formado em administração de empresas e trabalha em governança corporativa. Tem três ídolos: a mãe, Ursula, o campeão mundial de rali (WRC), Colin McRae, que morreu em um acidente de helicóptero perto de casa, em Lanark, na Escócia, em setembro de 2007, e o campeão mundial de Fórmula 1, James Hunt.

Da esq. para dir.: Marcos Baumgart, Beco Andreotti, Kleber Cincea e Cristian Baumgart. Foto: Victor Eleutério/Fotop/Vipcomm

Marcos Baumgart garante que é cozinheiro de mão cheia para fazer pizza e churrasco, coloca a alcachofra como prato preferido e adora andar de moto e de bicicleta. Por falar em bicicleta, o piloto diz que atualmente o livro preferido é de Lance Armstrong, “Muito Mais Do Que Um Ciclista Campeão”.

Marcos é torcedor do São Paulo, fã do Metallica (outro roqueiro no Time Brasil no Dakar, obaaa!) e diz que tem a mania de “lamber o cotovelo”… (Pode isso, Arnaldo?). Vou pagar pra ver… rsrs

Baumgart sempre sonhou com o Dakar e com oito anos de idade fez um desenho do que seria o carro dele na maior prova do mundo. O sonho se tornou realidade em 2013…

Desenho feito por Marcos Baumgart quando ele tinha apenas oito anos de idade e o carro no Dakar 2013: o sonho se tornou realidade! Imagens: Arquivo Pessoal/Divulgação

O navegador de Marcos Baumgart é o engenheiro de formação Kleber Cincea (pronuncia-se “Cíncea”), que tem uma indústria para fabricar quadros de bicicletas em alumínio. Kleber também esteve no Dakar em 2013, quando capotaram. A dupla já passou por bons momentos e muitos perrengues.

O perrengue mais dolorido foi no Rally dos Sertões 2017, quando eles capotaram apenas seis quilômetros depois da largada do primeiro dia de prova e tiveram que abandonar a competição.

Foram pelo menos 12 meses de planejamento e investimentos jogados fora. Mas corrida é corrida e faz parte. Com certeza um baita aprendizado para a dupla.

Kleber e Marcos são bicampeões do Brasileiro de Rally Cross Country e já correram em 18 edições do Rally dos Sertões. Kleber foi vice-campeão três vezes e Marcos duas vezes.

Kleber, outro tricolor paulista da turma, é o dono da primeira frase desse post. Perguntado se tinha algum medo, não pensou duas vezes: “Tenho medo da minha esposa…”

 

Lourival Roldan (Can-Am X3)

Lourival Roldan (esq) e Leandro Torres comemoram a vitória inédita do Brasil no Rally Dakar. Foto: Victor Eleutério/Fotop/Vipcomm

O navegador Lourival Roldan completa a lista dos 11 brasileiros que vão disputar o Dakar 2019. Ele vai correr de Can-Am X3 ao lado do piloto português Miguel Jordão.

Roldan tem 60 anos de idade, é pai, marido, analista de sistemas de formação e organizador de provas de rali no Brasil. Tem na bagagem vários títulos de todo tipo de prova e o mais importante deles é o de campeão do Dakar ao lado do piloto Leandro Torres (foto), em janeiro de 2017. Pela primeira vez um time brasileiro vencera uma categoria na classificação Geral do maior rali do mundo.

Percurso do Rally Paris-Dakar 1988, que teve a participação de Klever Kolberg e André Azevedo, os primeiros brasileiros que enfrentaram a maior aventura da Terra. Foto: Arquivo Pessoal Klever Kolberg

Lourival conheceu o Rally Dakar pelas páginas da revista Duas Rodas, em 1988, quando leu reportagens especiais sobre a participação de André Azevedo e Klever Kolberg na categoria Motos com as Yamaha XT 600. Em 2000 passou a correr com Klever, nos carros e, em 2003, estreou na prova que tanto sonhava, no deserto do Saara, na África.

E a voz da experiência continua sobre a edição 2019:

“Será um Dakar muito disputado. Temos excelentes duplas na categoria UTV. No mínimo temos que ficar entre os cinco primeiros todos os dias para poder brigar pelo título 2019. Tenho vontade de ser bicampeão e ajudar meu piloto a ser o primeiro português campeão do Dakar. A prova terá muitas dunas e passagens por lugares com traçados já utilizados nos dias anteriores. Será muito fácil de se perder e por isso a navegação será fundamental. Os caminhões irão sofrer muito e teremos um grid muito baixo. Os carros também irão sofrer muito nas dunas. Os UTVs serão a sensação deste Dakar”.

Klever Kolberg, de boné vermelho, concede entrevista à TV da Europa antes da largada do Rally Paris-Dakar. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Perguntei ao Lourival Roldan se correr o Dakar é um sonho…

“O Dakar é o maior desafio do automobilismo no mundo moderno. Competidores dos quatro cantos do planeta se encontram e se enfrentam encarando as maiores dificuldades de pilotagem, navegação com deserto, areia, dunas e pouca orientação com o máximo possível de velocidade preservando a integridade da equipe e equipamento. São muitas horas em condições duras de clima e piso, passando frio, calor, fome, sono e cansaço tendo que manter a rapidez do raciocínio, do reflexo na pilotagem, na dificuldade na navegação”.

André Azevedo, com a Yamaha XT 600, nas areias do deserto do Saara, na África: ferramentas e bagagem íam na garupa da motocicleta porque ele e o parceiro, Klever Kolberg, enfrentaram o Dakar sem qualquer apoio e assistência mecânica. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

É isso, amigos! Todos na torcida pelos brasileiros no Dakar! Até o próximo post!

* Ricardo Ribeiro, paulista, 47 anos, é jornalista, louco por internet, tecnologia, fotografia, vídeo e café. A trabalho, participando das maiores provas off-road do Planeta, já esteve em 38 países. Fez a cobertura do Paris-Moscou-Ulan Bator-Beijing, entre França, Alemanha, Holanda, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Mongólia e China. Também foi quatro vezes para o até então ‘Paris-Dakar’ na França, Espanha, Marrocos, Mauritânia, Líbia, Egito, Tunísia, Mali, Burkina Faso e Senegal, na África, e duas vezes entre Argentina, Chile, Bolívia e Peru. Fez a cobertura do Rally dos Sertões pela primeira vez em 1999. Já fez a cobertura da Stock Car, a maior prova do automobilismo brasileiro, da MotoGP, Rally RN 1500 e várias outras competições.