Nosso brazuca! O maior rali da vida de Leandro Torres não é o Dakar…

Nosso brazuca! O maior rali da vida de Leandro Torres não é o Dakar…

Ricardo Ribeiro

13 Janeiro 2016 | 00h54

Ele acorda todo santo dia pensando em como multiplicar os investimentos de clientes no mundo das finanças.

Mas nos últimos dias as apostas que ele fez não são em mercados futuros (juros e câmbio) e títulos do governo, e sim na melhor rota, na pressão ideal dos pneus ou se usará a primeira ou a segunda marcha para superar as temidas dunas de Fiambalá, na Argentina.

Leandro Torres, à direita, e Lourival Roldan na largada do Rally Dakar 2016, em Buenos Aires. Foto: Sanderson Pereira/Divulgação

Leandro Torres, à direita, e Lourival Roldan na largada do Rally Dakar 2016, em Buenos Aires. Foto: Sanderson Pereira/Divulgação

O dia vai ser decisivo na vida de muita gente que está disputando o Rally Dakar, entre eles a de Leandro Torres, um administrador de empresas carioca de 44 anos que mora em São Paulo desde 1994. Será a “Especial do Inferno”, a “quarta-feira 13”.

Vou contar uma breve história desse cara que está conseguindo levar a bandeira do Brasil para os lugares mais altos do pódio desta edição da prova.

Ele é um dos brasileiros que ainda estão na disputa do rali, que começou dia 2 de janeiro em Buenos Aires e que só vai terminar dia 16 em Rosário, também na Argentina, depois de passar por Uyuni, na região do maior deserto de sal do planeta.

Leandro é estreante no maior e mais temido rali do mundo e compete com um UTV (uma espécie de buggy) Polaris ao lado do experiente navegador paulista Lourival Roldan e já percorreu mais de 7.000 quilômetros até agora. No sábado, último dia da competição, a dupla terá deixado para trás quase 9.500 km e passado pelos piores perrengues da vida dele.

Enquanto divide a cabine com o navegador no maior desafio da vida que poderá ser nesta “quarta, 13”, voltarei um pouco no tempo para narrar como Leandro Torres se envolveu com ralis.

Passou pela minha cabeça (que pudesse morrer), mas sempre tentei acreditar que eu poderia vencer as bactérias. No limite era uma briga da sua cabeça contra seu corpo, já que era uma infecção.

Leandro resolveu fazer a cirurgia de redução de estômago em 2005 depois de ver o ponteiro da balança bater em 130 quilos. Afinal, acreditava que com dezenas de quilos a menos teria mais qualidade de vida, se livraria de doenças que batem à porta de pessoas obesas e ficaria mais disposto para as coisas deliciosas do dia a dia, como brincar com as crianças – ele já não conseguia mais praticar esportes e acompanhar a correria dos dois meninos, um com 3 e outro com 1 ano de idade. E o terceiro estava a caminho.

Parecia o mundo perfeito, mas nem tudo deu certo como planejado. Dez anos atrás Leandro Torres começou a lutar com a duna mais difícil da vida dele.

Como em um rali, sempre tem um obstáculo imprevisível pelo meio do caminho. Após a cirurgia, Leandro sofreu bastante com uma infecção no alto do estômago (fístula) e ficou 56 dias internado. A luta foi longa, difícil, uma luta pela vida dia após dia. As duas semanas intermináveis do Dakar são fichinha…

Leandro Torres e Lourival Roldan com o UTV no Dakar 2016. Foto: Sanderson Pereira/Divulgação

Leandro Torres e Lourival Roldan com o UTV no Dakar 2016. Foto: Sanderson Pereira/Divulgação

Pergunto ao Leandro:

1. Enquanto você esteve internado, pensou que fosse morrer?
Passou pela minha cabeça (que pudesse morrer), mas sempre tentei acreditar que eu poderia vencer as bactérias. No limite era uma briga da sua cabeça contra seu corpo, já que era uma infecção.

2. O que passava na sua cabeça?

Que ela (cabeça) estando em condições de encarar essa briga, não deixaria meu corpo na mão.

3. Por que resolveu fazer a redução do estômago? 
Não conseguia praticar esportes e acompanhar o ritmo dos meus filhos. Na época eu tinha dois meninos (3 e 1 ano).

4. Quantos dias você ficou internado?
Fiquei 56 dias no hospital, com uma fístula.

5. Por que você disse que, se voltasse a ter uma “vida normal”, só faria atividades prazerosas?
Porque hoje estamos aqui e amanhã não sabemos onde estaremos. O rali é uma das coisas que me dão prazer.

6. Além de rali e da família, o que mais é prazeroso para vc? 
Trabalho com que gosto, faço o esporte que gosto, e com a família, e ainda saio do meu cotidiano.

7. O que seus filhos disseram quando você anunciou que iria para o Dakar? 
Eles disseram que teriam o maior orgulho se eu tentasse completar o Dakar.

8. Você é estreante no Dakar. Já participou de outras provas grandes?
Já corri o Rally dos Sertões em 2007, 2008 e 2009 de moto. Depois, em 2010, 2011, 2012 e 2013 de carro. E 2014 e 2015 de UTV

9. O Rally dos Sertões é um “vírus”? 
Sim, é um vírus, mas não sei a razão exata. Talvez porque no meu primeiro ano quebrei a 70 quilômetros do final; talvez pela competição, talvez por passarmos por lugares pouco ‘comuns’, talvez pelas histórias contadas e talvez pelas amizades construídas. E muito provável pela combinação de tudo isso.

10. Faça um resumo mais detalhado das suas participações em ralis…
2007 – Comprei uma moto para começar a fazer ralis e fiz a estreia no Rally dos Sertões. Sofri uma queda faltando 70 quilômetros para o final e cheguei em Salvador de helicóptero.
2008 – Tentei novamente completar o Sertões de moto, mas o ombro acidentado no ano anterior não aguentou e tive que parar no meio.
2009 – Completei pela primeira vez o Rally dos Sertões de moto. Sensação Única!!!
2010 – 2011 – 2012 – 2013 – Mudei para categoria carro
2014-2015 – Fiz o Rally dos Sertões de UTV. Descobri uma sensação muito boa de correr com a aventura de moto com a segurança de um carro. Isso me despertou o desejo de ir ao Rally Dakar.  Nas motos eu não tinha vontade e carro seria financeiramente inviável. Decisão tomada após o treino no Merzouga Rally, no Marrocos, no final do ano passado
2016 – Primeira participação no Rally Dakar com Lourival Roldan