O terrorismo, o Rally Dakar e o fusquinha de Amyr Klink

O terrorismo, o Rally Dakar e o fusquinha de Amyr Klink

Ricardo Ribeiro

19 de novembro de 2015 | 22h52

A França sempre esteve na mira de terroristas, como viemos a ter ainda mais certeza agora depois dos ataques covardes em Paris. E o Rally Dakar, organizado em uma empresa que fica colada à capital francesa, em Issy les Moulineaux, sempre foi alvo potencial para os radicais e extremistas.

Não existia melhor ‘propaganda’ do que atacar o Dakar. Afinal, o maior evento de esportes a motor do planeta é transmitido, durante vários dias, para TVs de mais de 190 países.

O Dakar já sofreu várias ameaças, principalmente quando era realizada na África. Em 2000, a organização recebeu a informação de que os competidores seriam atacados. O evento ficou parado vários dias em pleno Saara.

Em outro ano, em 2008, a competição foi cancelada na véspera da largada, em Lisboa. Dias antes, quatro turistas franceses foram assassinados na Mauritânia, país que sempre estava na rota da corrida.

Aliás, depois de 2008, o rali veio para a América do Sul. Aqui temos desertos, dunas maravilhosas no deserto do Atacama e a hospitalidade do povo da Argentina, Chile, Peru e Bolívia.

O jornalista Julio Cruz Neto, que já cobriu o Dakar e o Rally dos Sertões algumas vezes, escreveu o livro Caranguejo do Saara narrando as aventuras na África. Ele estava acompanhando o Dakar quando a prova foi vítima de mais uma ameaça.

O livro narra ainda belas histórias de bastidores do Dakar, como a guerra de palavras envolvendo o navegador Amyr Klink e o piloto André Azevedo. Saiu faísca no meio do deserto.

Abaixo, um trecho do Caranguejo

“A ameaça terrorista partiu de um grupo comandado por Moctar Moctari, até então um desconhecido dissidente do GIA (Grupo Islâmico Armado). Sob seu comando, há 300 homens fortemente armados, 40 jipes 4×4 e caminhões de abastecimento. Ele quer se vingar de Niamey, cujo exército ajudou as Forças Armadas da Argélia contra o GIA. Obteve suas armas junto aos próprios militares argelinos, além de grupos nômades rebeldes.

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Julio Cruz Neto, jornalista, escreveu o livro Caranguejo do Saara

Informações da France Presse, obtidas junto a uma fonte diplomática que prefere ficar no anonimato. Aquele papo de Moctar Moctari num release de uma agência de notícias francesa, apresentado pelos próprios organizadores franceses, não convence muito. Parece estranho que num dia a direção de prova se diga obrigada a tomar uma decisão muito difícil e no dia seguinte apareça com uma notícia (literalmente) bombástica que a justifica perfeitamente. E se o tal terrorista era desconhecido na época, assim continua até hoje. No Wikipedia não há nenhuma linha e no Google, só dez citações.

Como é um tanto quanto complicado apurar sobre terroristas no meio do deserto, principalmente quando sua especialidade é esporte, não há como fugir das informações à disposição. Mas é preciso fazer as devidas ressalvas e contextualizações, além de recorrer aos colegas da região, que sempre sabem algo mais. O único repórter africano cobrindo a prova, o senegalês Khalifa Ndiaye, entende a situação melhor que os outros, porque sabe que Niamey fica perto de uma tríplice fronteira entre Níger, Mali e Argélia, onde vive uma população que tem a mesma origem, mas foi separada em nações diferentes. Uma imbecilidade que ocorre em muitos lugares e particularmente na África, onde fronteiras foram traçadas à régua.

Foto de Julio Cruz no deserto do Saara.

Foto de Julio Cruz no deserto do Saara.

Aquele é, portanto, um terreno fértil para o surgimento de tensões sociais e hostilidades, onde em 1997 o percurso de uma etapa já havia sido alterado para evitar terroristas. A situação é semelhante à do extremo Oeste da África, onde um movimento conhecido como BBB tenta mudar a geografia de três países: Gâmbia, Guiné-Bissau e Senegal. Os “Bs” são de Banjul (região da Gâmbia), Bignona (no Senegal) e Bissau (na Guiné-Bissau), que reivindicam um estado independente.

Onze horas, meio-dia, uma da tarde, nem sinal dos pilotos. Será que a primeira empreitada em terra firme do Amyr Klink, como navegador do piloto Cacá Clauset, será a última aventura da sua vida? A etapa foi cancelada, mas os pilotos precisam chegar de Ouagadougou, em Bobo Dioulasso, a Niamey. Onde estarão os homens de Moctari? Os competidores vão chegando aos poucos e até o fim do dia estamos todos juntos, a salvo.

O livro

O livro “Caranguejo do Deserto – As aventuras de um jornalista brasileiro no Rally Paris-Dakar”

Aproveito a parada forçada para uma entrevista sem pressa com o Amyr, o estreante sem papas na língua que diz estar achando tão fácil que poderia correr de Fusquinha. O André Azevedo não gostou nem um pouco e reclamou, dizendo que aquela declaração desmerecia o trabalho que ele e o Klever Kolberg vinham fazendo há tantos anos, desde os tempos em que o rally era bem mais perigoso, com menos tecnologia. Eu poderia ter publicado uma resposta dele, o que criaria polêmica, venderia mais jornal e, verdade seja dita, deixaria a cobertura mais completa, além de agradar aos pilotos que, afinal de contas, eram responsáveis pela minha ida ao rali – quem bancou todos os custos da cobertura foi a equipe do André e do Klever. Mas, “foca” que era, com pouco tempo de redação e quase nenhuma preocupação com diplomacia, eu não era de fazer média. Perdi aquela oportunidade, mas antes tarde do que nunca, fica o registro: Amyr, o André não gostou nem um pouco.”

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O livro conta muitas histórias bacanas. Leia mais!

* Ricardo Ribeiro, paulista, 44 anos, é jornalista, louco por internet, tecnologia, fotografia e café. Já participou dos maiores ralis do mundo, como o Paris-Moscou-Ulan Bator-Beijing, entre França, Alemanha, Holanda, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Mongólia e China. Também cobriu quatro vezes o até então ‘Paris-Dakar’ no Marrocos, Mauritânia, Líbia, Egito, Tunísia, Mali, Burkina Faso e Senegal, na África. Já cobriu mais de 10 edições do Rally dos Sertões, no Brasil.

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