UTV? Conheça a história do veículo que os brasileiros foram campeões do Rally Dakar 2017

UTV? Conheça a história do veículo que os brasileiros foram campeões do Rally Dakar 2017

Ricardo Ribeiro

21 de janeiro de 2017 | 02h45

Tudo bem? O Dakar 2017 já acabou, mas ainda tenho muita história para contar.

Guarde bem essas letras: U T V… Elas vão revolucionar o esporte  off-road no Brasil.

Ainda mais agora, que uma dupla de brasileiros entrou para a história mundial ao se tornar campeã do Rally Dakar 2017. O piloto Leandro Torres e o navegador Lourival Roldan venceram nos UTVs e passaram a fazer parte da seleta lista dos “melhores do mundo“. O título é inédito para o Brasil: nunca ninguém havia garantido o primeiro lugar de uma categoria na classificação geral.

Acredito que a paixão pelos UTVs vai bombar ainda mais nos próximos anos, principalmente agora, depois de uma vitória no maior rali do mundo.

Em resumo:

UTV, na tradução livre, significa “Veículo Utilitário de Multitarefas”

Tem quatro rodas e um, dois e quatro lugares

Tem cabine tubular, cinto de segurança e os ocupantes devem usar capacete

Usado para lazer (grande maioria), como chácaras, sítios e fazendas, e competições

Ideal para terra, areia, lama e até neve

Os motores podem ter até 1000 cilindradas

Modelos novos fazem de 0 a 100 km/h em 4,8 segundos

Os UTVs Podem custar cerca de R$ 100.000,00, dependendo da configuração. Mas têm modelos bem mais baratos

Investimento para correr e vencer o Rally Dakar 2017: R$ 515.000,00

Crescimento nas vendas foi de 306% de 2013 até hoje. Em 2016 foram vendidas cerca de 700 unidades (dados ainda não consolidados)

 

Da esq. para a direita: Adilson Kilca, Aristides Mafra Junior, Cacá Clauset, Nuno Fojo, Sérgio Klaumann e Sylvio de Barros. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal Nuno Fojo

Da esq. para a direita: Adilson Kilca (CBM), Aristides Mafra Junior, Cacá Clauset, Nuno Fojo, Sérgio Klaumann e Sylvio de Barros. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal Nuno Fojo

A categoria UTV, pouco conhecida pela grande maioria (não tem a mesma popularidade dos “carros” e “motos”), é a que mais cresce nas competições do Brasil e do mundo. Tanto é que o Dakar decidiu, esse ano, fazer uma categoria exclusiva, já que até o ano passado era misturada com os carros – o que seria injusto.

Lourival Roldan e Leandro Torres (esq), campeões do Rally Dakar 2017. Título inédito para o Brasil. Foto: Victor Eleutério/Fotop/Vipcomm

Lourival Roldan e Leandro Torres (esq), campeões do Rally Dakar 2017 com um UTV Polaris. Título inédito para o Brasil. Foto: Victor Eleutério/Fotop/Vipcomm

Minha mãe já entende o que é o buguinho

Outro dia postei nas redes sociais sobre a dupla Leandro-Lourival e recebi um monte de perguntas o UTV. Então resolvi buscar a história dele aqui no Brasil, falei com um monte de gente e vou mostrar como tudo começou.

Muitos dizem que é o futuro do off-road no país: é mais barato que um carro, é seguro, é emoção pura porque bate o vento na cara (sentimento que motociclista adora!) e ainda apresenta uma grande evolução. Há quem diga que os modelos mais novos poderão passar dos 140 km/h – ou até mais, dependendo dos equipamentos instalados.

Leandro Torres e Lourival Roldan (Polaris), campeões do Rally Dakar. Foto: Victor Eleutério/Vipcomm/Fotop

Leandro Torres e Lourival Roldan no Rally Dakar 2017: título histórico para o Brasil! Foto: Victor Eleutério/Vipcomm/Fotop

Pra resumir!

As grandes marcas que atuam no mercado de UTVs no país, como a Can-Am (canadense) e a Polaris (norte-americana), podem até ficar pê da vida, mas uma boa forma de definir o veículo, para que todos entendam, é chamá-los de uma “espécie de buguinho“.

Aaaah, agora entendi! Um buguinho…”, disse minha mãe.

Os UTVs não eram importados para o Brasil até 2.000 e pouquinho… Um grupo de apaixonados por quadriciclos, que já competia em provas como o Rally dos Sertões, se encantou pelo novo carrinho (ou buguinho) que fazia sucesso na Europa e nos Estados Unidos e queria trazer a novidade para as competições brasileiras.

Não tem guidão, mas é ‘motociclismo’

Certo dia, em um frio tremendo no inverno em Santa Catarina durante o Rally das Serras, pilotos de quadriciclos procuraram um representante da CBM (Confederação Brasileira de Motociclismo) para falar da novidade. “Me perguntaram se poderíamos fazer uma competição experimental de UTVs no Brasil. Fiquei interessado e, a partir daquele momento, um grupo de pilotos entusiasmados resolveu reunir os interessados”, afirmou o empresário gaúcho Adilson Kilca, também responsável pelo rali dentro da entidade.

Reinaldo Varela correu o Rally Dakar 2013 sozinho, sem navegador, com um UTV Can-Am. Foto: Divulgação Can-Am/Arquivo pessoal

Reinaldo Varela correu o Rally Dakar 2013 sozinho, sem navegador, com um UTV Can-Am. Foto: Divulgação Can-Am/Arquivo pessoal

Com o aval da CBM, que ficaria encarregada de criar as regras, regulamentos etc, aparentemente estava tudo certo para a nova empreitada. É por isso que a categoria UTV está sob a tutela da Confederação Brasileira de Motociclismo, embora tenha quatro rodas, volante (e não guidão) e se pareça mais com carro do que com uma motocicleta. Afinal, a ideia surgiu de pilotos de quadris, que procuraram uma entidade responsável pelas regras de provas de motocicletas.

Organizador do Rally dos Sertões apostou na ideia

Mas para a ideia de uma prova de UTVs sair do papel, ainda faltava o principal: alguma grande competição que topasse fazer a primeira corrida.

O empresário José Koizumi, conhecido como Avê, dono da empresa Bike Box, que faz preparação de motos e quadriciclos, além de organizar expedições sobre duas rodas por lugares exóticos do Brasil, como o Jalapão, no interior do Tocantins, levou a ideia para outro empresário, Marcos Ermírio de Moraes, da Dunas Race, organizadora do Rally dos Sertões e do Rally dos Amigos. “O Marcos foi correr como piloto de carro o Baja Portalegre, em Portugal, e viu os UTVs em ação lá. Ele voltou entusiasmado e apostou na ideia”, relembra Avê.

“Eu e o Avê estávamos conversando e pensamos que o UTV poderia ser uma boa opção de categoria, com boa performance e ótima opção para pilotos, tanto de carro quanto de moto e quadriciclos. A modalidade cresceu bastante e pode ser uma excelente alternativa para quem quer curtir o off-road”, afirma Marcos Moraes.

Em dezembro de 2011, em uma fazenda no interior de São Paulo, começava, de forma experimental, a categoria UTV nas competições off-road. Os tais buguinhos fizeram sucesso logo de cara e chamaram a atenção de pilotos que até então corriam de moto ou de quadriciclos. E de alguns que já até corriam de carro. A corrida experimental teve cinco pilotos – nenhum profissional (aquele que realmente sobrevive de corridas).

Consegui, graças ao amigo Nuno Fojo, uma foto histórica dos caras que inauguraram a categoria no Brasil.

Aristides Mafra Jr., o grande campeão!

Jornal de Santa Catarina, em dezembro de 2011, retrata a primeira vitória de uma prova de UTV, com Mafra Junior:

Jornal de Santa Catarina, em dezembro de 2011, retrata a primeira vitória de uma prova de UTV, com Mafra Junior: “Maravilhoso” Foto: Reprodução

O vencedor da disputa histórica foi o catarinense Aristides Mafra Junior, seguido por Sergio Klaumann, Sylvio de Barros (esse mesmo, que correu o Dakar 2017 com um MINI ao lado de Rafael Capoani), Nuno Fojo e Cacá Clauset. Com exceção de Klaumann, que estava a bordo de um UTV Bombardier Comander 1000, os demais usaram Polaris.

Depois do Rally dos Amigos, pilotos e eventos começaram a se interessar pela novidade e o primeiro Campeonato Brasileiro foi disputado meses depois, em 2012, no Rally de Barretos, no interior de São Paulo.

O bebê que se tornou gigante

Começava a andar ali o bebê, que hoje já é adolescente e não para de crescer. E está caminhando a passos largos para se tornar um gigante. E há até quem aposte que a categoria UTV vai revolucionar o esporte amador off-road no Brasil, como já acontece na Europa e Estados Unidos.

Mas para ter a certeza de que estou falando, fiz meu dever de casa. Falei com várias pessoas envolvidas com rali aqui no Brasil. Entrevistei pilotos, organizadores de eventos e executivos dos dois maiores fabricantes que atuam no Brasil, como a Polaris e a Can-Am.

Os números dos UTVs no Brasil

Também levantei dados de participantes das maiores provas realizadas no Brasil e que contam com a categoria UTV: Rally dos Sertões, Rally RN 1500, Rally Piocerá-Cerapió e Enduro Transbahia. O Transbahia e o Cerapió, por exemplo, farão um Campeonato Brasileiro de Regularidade de UTV já em 2017. Os vencedores serão definidos de acordo com os resultados somados das duas provas.


O mercado de UTVs no Brasil cresceu 306% desde 2013
Em 2016, foram comercializadas cerca de 700 unidades no Brasil (dados ainda não consolidados)
É a única categoria que teve crescimento de número de inscritos em 2016 nas principais provas off-road do país

Número de inscritos de UTVs no Rally dos Sertões

UTV em ação no Rally dos Sertões. Foto: Doni Castilho/Vipcomm

UTV em ação no Rally dos Sertões. Foto: Doni Castilho/Vipcomm

2012 – 12
2013 – 09
2014 – 21
2015 – 30
2016 – 31

Número de inscritos de UTVs no Rally Piocerá (regularidade)

UTV em ação no Rally Cerapió (do Ceará a Teresina). Foto: Doni Castilho/Vipcomm

UTV em ação no Rally Cerapió (do Ceará a Teresina). Foto: Doni Castilho/Vipcomm


2016 – 9
2017 – 17

Número de inscritos de UTVs no Baja Jalapão

UTV no Baja Jalapão, no interior do Tocantins. Foto: Nelson Junior/Divulgação Arena

UTV no Baja Jalapão, no interior do Tocantins. Foto: Nelson Junior/Divulgação Arena

2015 – 24
2016 – 33

Número de inscritos de UTVs no RN 1500

UTV no Rally RN 1500. Foto: Fabio Davini/Divulgação RN 1500

UTV no Rally RN 1500. Foto: Fabio Davini/Divulgação RN 1500

2012 – 3
2013 – 8
2014 – 15
2016 – 22
2017 – 30 (previsão). Obs.: a prova não foi realizada em 2015

Marcos Ermírio de Moraes acreditou no potencial dos UTVs e autorizou a realização de uma prova

Marcos Ermírio de Moraes acreditou no potencial dos UTVs e autorizou a realização de uma prova “experimental”. Foto: Divulgação/Depto. de Comunicação do Governo do Mato Grosso do Sul

“Percebemos que muitos pilotos de carros e quadriciclos estão migrando para o UTV”, afirma Flavia Moreira, diretora-executiva do Rally Piocerá, que em 2017 completará 30 anos. Até o tradicional Enduro da Independência já chegou a pensar na criação de uma categoria UTV, apesar de a prova de 2017 seja apenas de motocicletas.

Resultados oficiais da primeira corrida de UTV

Resultados oficiais da primeira corrida de UTV “experimental” no Brasil, em dezembro de 2011

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