“Staff” de Eric Granado, do Mundial de moto elétrica, ameaça processar jornalistas brasileiros

“Staff” de Eric Granado, do Mundial de moto elétrica, ameaça processar jornalistas brasileiros

Ricardo Ribeiro

13 de dezembro de 2018 | 13h22

Fala amigos, tudo bem? A história é tão inusitada (pra não dizer tosca e bizarra) que resolvi fazer um breve registro aqui no blog. Afinal, o personagem principal do imbróglio é um piloto da motovelocidade mundial, figura pública e representa o Brasil pelos quatro cantos do mundo.

É um assunto que interessa aos profissionais de comunicação, principalmente assessores de imprensa; patrocinadores, aos próprios atletas e aos chamados “staffs”, muitas vezes formados por amigos e familiares – e não por pessoas “profissionais, frias e calculistas” (no bom sentido) que saibam lidar com as mais variadas situações, principalmente as chamadas “gestão de crise”.

A figura central é Eric Granado, campeão europeu de motovelocidade, baita piloto do Superbike Brasil, ex-piloto no Mundial (Moto 2) e agora representante do país no Mundial de Moto Elétrica (MotoE).

Eric Granado: staff ameaça processar jornalistas brasileiros. Foto: Divulgação NS Comunicação

Acompanho Eric desde quando era uma criança e corria o Campeonato Brasileiro de Motovelocidade em Interlagos. A Honda CG 125 parecia gigante perto do garoto! Conheço toda a família e os amigos mais próximos dele e posso garantir que é tudo gente do bem.

E já trabalhei para o Eric, de forma indireta, quando eu era responsável pela comunicação de competições da Honda e ele disputava o Superbike Brasil.

Para resumir: no final de semana, durante a última etapa da Stock Car, em Interlagos, Eric teve um encontro com a fera Lucas Di Grassi, hoje uma grande autoridade mundial quando o assunto é carro elétrico ou autônomo.

Eric Granado, no Mundial de Motovelocidade (Moto 2) com a equipe Forward. Ele foi demitido no meio da temporada e dono do time já foi preso na Suíça por lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. Foto: Divulgação

Di Grassi concilia a agenda da Formula-E e da Stock Car com palestras em vários países sobre o assunto. Esteve, inclusive, falando na Web Summit em Lisboa, dias atrás. Di Grassi é CEO da Roborace, que é corrida de carros autônomos e o Eric foi pegar algumas dicas com ele. A imprensa registrou o encontro.

Agora começa a história toda. Eric concedeu uma entrevista, gravada, para o site Grande Prêmio, um fenômeno de audiência, dirigido pelos jornalistas Flavio Gomes e Victor Martins. A equipe do Grande Prêmio é formada por mais de 20 profissionais.

O GP tem 65 milhões de acessos por ano e os conteúdos de automobilismo/motociclismo são publicados nos maiores portais do país.

Na entrevista, Eric Granado foi perguntado sobre os rivais e adversários na MotoE, entre eles o espanhol Sete Gibernau. O brasileiro disse que “não se preocupava tanto com Gibernau”, mas sim com outros nomes que vão alinhar no grid da categoria.

O Grande Prêmio, então, escreveu o texto baseado nas declarações do piloto, com o título “Granado minimiza presença de Gibernau na MotoE”.

O “minimiza”, é fato, ficou por conta do jornalista Felipe Noronha. Acredito que houve uma interpretação por parte dele. Eu, particularmente, não vejo  problema algum na frase dita pelo piloto brasileiro. Não achei que o Eric tentou desmerecer o Gibernau.

Nota de repúdio de Eric Granado contra site Grande Prêmio. Reprodução

 

Reportagem do portal Grande Prêmio. Foto de Eric Granado (sentado, ao volante) foi feita no box de Lucas Di Grassi (boné verde), na última etapa da Stock Car, em Interlagos. Imagem: Reprodução

É aí que começa a confusão.

O “staff” de Eric Granado resolveu escrever e divulgar uma “nota de repúdio” contra o portal Grande Prêmio. A assessoria de Granado enviou o texto para jornalistas, patrocinadores e formadores de opinião.

O release de Granado tinha os logos dos principais patrocinadores, como a Honda, maior fabricante de motocicletas do planeta, e Oakley. O layout do release é igual a todos os outros comunicados já divulgados pela equipe e o fato de exibir as marcas não significa que as empresas concordam com a “nota de repúdio”.

Conversei com Nadia Schunk, minha colega de profissão e assessora de imprensa de Eric Granado. Ela garantiu que a divulgação da nota foi uma decisão do “staff” do piloto, formado pelo pai de Eric, Marco, por ela e por advogados que representam o EG. Disse ainda que era contra a divulgação da nota, mas foi “voto vencido”.

O texto do “staff”, no frigir dos ovos, diz que, a partir daquele momento, Granado não tinha mais compromissos com o Grande Prêmio e que não daria mais entrevistas para o portal.

Deixar de atender um determinado veículo de imprensa é um direito do Eric, mas será que os patrocinadores pensam da mesma maneira?

Afinal, o que dá para aprender e absorver com essa história?

Eric é um atleta de nível mundial e leva a bandeira do Brasil para todos os continentes. Portanto, precisa saber lidar com a imprensa e gerenciar supostas “crises”. Seja no Brasil ou no exterior.

Eric é uma pessoa pública e tudo o que disser terá repercussão – positiva ou negativa (depende da interpretação e interesses de cada um).

Eric representa empresas globais, entre elas a Honda, a maior fabricante de motocicletas do mundo, e a Oakley, Alpinestars entre outras. A responsabilidade aumenta quando ele vai abrir a boca, mesmo que seja uma decisão do staff.

Eric tem todo o direito de falar ou não falar com a imprensa, mas o “staff” precisa saber que não é ele, o “staff”, quem determina o quê e como uma reportagem será publicada.

O staff de Eric precisa aprender que a imprensa pode ser usada de forma positiva, não negativa. Eric precisa “casar” com a imprensa, não pedir a separação.

O staff de Eric precisa aprender que a imprensa pode, sim, investigar o histórico das equipes por onde ele passou: se o proprietário é picareta ou não, se o dono foi preso por lavagem de dinheiro e sonegação de impostos, se a equipe paga ou não as dívidas, se a equipe tem credibilidade no mercado na hora de comprar o chassi adequado, peças, equipamentos e acessórios e por aí vai. A competentíssima Juliana Tesser, do Grande Prêmio, que traduziu o livro do Valentino Rossi e faz a cobertura da MotoGP, mostrou todo o histórico da equipe Forward, da qual o Eric acabou sendo demitido por falta de resultados satisfatórios esse ano. Juliana foi ameaçada com processo na Justiça.

O staff do Eric precisa aprender que não é culpa da imprensa se tais informações foram publicadas. E também precisa aprender que, se vai “prejudicar algum negócio com patrocinadores”, não é problema do jornalista ou do site Grande Prêmio (ou de qualquer outro veículo de comunicação).

O staff de Eric Granado também precisa aprender que a imprensa é livre. E caso a imprensa publique algo que não está de acordo, existe um mecanismo chamado “direito de resposta” (isso em último caso). Antes disso, tem a velha e boa conversa. Afinal, nós jornalistas, também erramos.

Enfim, nunca devemos parar de aprender!

E se o staff do Eric Granado tem humildade suficiente para aprender alguma coisa com toda essa confusão com o portal Grande Prêmio, deveria, no mínimo, se retratar e pedir desculpas a todos os profissionais do site e aos seus milhões de seguidores/leitores.

E para encerrar…

O staff de Eric Granado coleciona polêmicas com os jornalistas brasileiros. “Não gostaram” da entrevista de Alex Barros, ao jornalista Gabriel Lima, do portal Motorsport, quando comentava sobre a (suposta) volta do jovem piloto ao portal de automobilismo/motociclismo. O Motorsport tem alcance global, com audiência em todos os continentes. Veja aqui.

Equipe Forward, de Eric Granado no Mundial de Moto2, deixou de disputar corrida nos Estados Unidos devido aos problemas do proprietário do time. Leia mais.

Valeu, amigos! E desejo toda sorte do mundo ao Eric Granado no Mundial de MotoE!