“A vida não é um documento”, diz ativista indiana

gabrielacupani

20 de junho de 2012 | 15h35

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Estrela do ecoativismo, Vandana Shiva critica Rio+20

Roberta Pennafort/RIO

A física indiana Vandana Shiva é uma estrela global do ecoativismo. Autora de mais de 20 livros e de 500 publicações acadêmicas, fundadora de um movimento feminino para a proteção da biodiversidade, ela viaja o mundo pregando contra a exploração do homem pelo homem e o patenteamento de recursos da natureza, em especial as sementes.

Vandana está no Rio depois de 20 anos para mais uma tentativa de ajudar a salvar o planeta. Mas não é nas mesas de negociação que deposita suas esperanças, e sim na força da solidariedade humana.

Ontem à tarde, fez um discurso contundente criticando a Rio+20 ao participar damesa “Mulheres e o Desenvolvimento Sustentável – Liderando o Caminho”, organizada pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade em evento paralelo à conferência.

A senhora fica desanimada quando vê que questões como agricultura familiar e erradicação da pobreza extrema provavelmente ficarão de fora do documento final da Rio+20?
Vim sem grande expectativa com relação à conferência formal. Não é por que o documento não vai falar dessas causas que a luta das pessoas vai diminuir. Não vim atrás de um texto, e sim atrás da solidariedade. A vida não é um documento, é a preservação dos nossos rios e sementes; verde não é a cor do dinheiro, é a cor da vida. Confio muito mais na força das pessoas do que nas negociações, que são influenciadas pelas grandes corporações. Existe uma grande reunião de quem está preocupado com a paz e a justiça, o que nos permite pensar estratégias juntos. Em 92, podíamos entrar nos corredores e interferir, por isso chegamos a compromissos sobre o clima. Retrocedemos. Assim como as corporações
estão comprando nossos governos, estão comprando a ONU. A Rio+20 será lembrada como a última tentativa das grandes corporações de desfazer as obrigações legais estabelecidas na Eco 92.

O que o cidadão comum pode fazer?
Todo mundo tem que declarar que o patenteamento das sementes é ilegal e imoral. A Monsanto (gigante da agroindústria, produtora líder de sementes geneticamente modificadas) não inventou as sementes, e patentes são dadas a invenções. Como governos deixam que eles cobrem royalties de fazendeiros, levando-os ao suicídio? O meu chamado às pessoas em todo o mundo é para o dia 2 de outubro, aniversário de Gandhi: Diga não ao patenteamento. Comecem a guardar sementes. Não importa se você não é um fazendeiro, faça em casa, na escola.

A senhora costuma ser criticada por defender metas consideradas inatingíveis, desconectadas da realidade capitalista. Como responde a isso?
É porque estou conectada com a realidade que ajo assim. Se não fosse, investiria em Wall Street enquanto eles quebram, acharia que as sementes foram criadas por uma empresa. Estamos vivendo num mundo em que os poderosos acham que a alucinação deles é a realidade. Para mim, a realidade é a da criança que morre de fome.

A senhora critica o crescimento econômico da Índia, por excluir 95% da população, mas crescimento econômico é o que todos os países perseguem. O que está errado?
Crescimento econômico é um indicador de quanto a natureza foi destruída. Nós temos que priorizar o bem-estar, e não o crescimento. Existe um ditado antigo que diz que quem tem o ouro escreve as regras, e quem escreve as regras recebe mais ouro. Meu país, em 1992, não tinha um problema grave de fome. Hoje, uma a cada duas crianças procura
comida no lixo. Por quê? Porque comida se transformou numa commodity. A sociedade era muito mais igualitária antes do crescimento econômico, que só serviu para criar dez bilionários. Dizem que existe uma classe média em países como Índia e Brasil, mas para mim existe uma elite e uma grande parcela da população que acaba despossuída de seus recursos
naturais.

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