Cúpula dos Povos recicla apenas 20% do lixo produzido

gabrielacupani

18 de junho de 2012 | 18h34

Antonio Pita, do Rio

Apesar de ser um dos principais temas presentes nas discussões da Cúpula dos Povos, a coleta de lixo ficou de fora do evento realizado no Aterro do Flamengo. Das cercas de 450 lixeiras instaladas no espaço, apenas 25 eram destinadas a materiais recicláveis. Nos três primeiros dias do evento, aberto oficialmente na última sexta-feira, mais de quatro mil quilos de lixo foram rejeitados sem separação ou tratamento prévio para reciclagem.

Entre domingo e segunda-feira, no total, foram apenas 960 quilos de material reciclável coletados – cerca de 20% do total produzido no espaço desde o início do evento. Os dados são do Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável (MNCR), que no domingo distribuiu no parque 25 grandes sacos de coleta, com capacidade para 120 litros cada um. O restante do lixo foi recolhido pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio (Comlurb), que não realiza a separação do material.

Inicialmente, a previsão da organização do evento era que fossem instalados equipamentos para a triagem e prensa do material no próprio Aterro. O espaço seria aberto ao público e contaria com a realização de oficinas e palestras. Mas problemas na organização do evento impediram a realização do projeto. As máquinas chegaram a ser levadas para o aterro mas não puderam ser utilizadas pois não cabiam no estande destinado ao Movimento.

“Tínhamos mesas de triagem, balanças e prensas novas, emprestadas por cooperativas da região do Aterro de Gramacho, mas que não puderam ser utilizadas. Só descobrimos isso na sexta-feira e encontramos essa solução improvisada. Este evento era para ser um exemplo, mas infelizmente isso não aconteceu”, lamentou Claudete Ferreira, coordenadora regional do Movimento e catadora há 21 anos no Rio.

A organização da Cúpula afirma que houve desencontro entre as informações repassadas pelo movimento e também lamentou a falta do espaço de coleta e seleção dos resíduos. “Eram equipamentos muito pesados e que demandavam um sistema de energia trifásico, que não nos foi informado inicialmente. Preferimos não apostar no erro, seria arriscado”, afirmou Suzana Crescente, uma das organizadoras do evento.

Desperdício

Ao fim da Cúpula, no próximo sábado, todo o material recolhido será destinado a diferentes cooperativas do Rio de Janeiro para realizar a triagem, prensa e venda do material. Segundo estimativas dos catadores que trabalhavam no local, o material desperdiçado nos primeiros dias do evento poderia render até R$ 8 mil, a depender da qualidade e do tipo de resíduo recolhido.

“Muitas pessoas já se conscientizaram, mas ainda há muito o que fazer para que a reciclagem e a situação dos catadores seja vista com mais seriedade. Nós somos invisíveis para a sociedade”, afirmou João de Almeida, que por 15 anos foi catador no Aterro de Gramacho, o maior da América Latina, fechado no início do mês.

Ele e outros agentes ambientais trabalham na Cúpula esclarecendo os visitantes sobre o tema e recolhendo o material. Para o trabalho, cada um dos 50 agentes contratados recebeu R$ 500. Além deles, diversos catadores não cadastrados também recolhiam latas nas lixeiras espalhadas pela Cúpula, alheios aos debates que aconteciam nas tendas. “Estou fazendo por mim, mas acho que isso também é contribuir “, disse um dos catadores, Ailton dos Santos, de 47 anos.

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