‘Perdemos senso de compaixão’, diz vencedor do Blue Planet Prize

João Coscelli

17 de junho de 2012 | 20h39

Dupla que criou o conceito de pegada ecológica critica ganância da humanidade e rumos que a Rio+20 está tomando

Giovana Girardi – O Estado de S. Paulo

“Há 20 anos assumimos que poderíamos construir nosso caminho para a sustentabilidade. Essa foi a mensagem da Rio-92, mas desde então nada mudou. Só que o mundo está além do seu limite. Nós agora estamos usando mais produtos da natureza, mais peixes, mais florestas, mais solos, do que o planeta consegue suprir. Estamos despejando mais lixo do que pode ser assimilando. Claramente estamos em um caminho insustentável.”

 Essa foi a frase com a qual o ecólogo canadense William Rees iniciou uma entrevista que fiz há alguns dias com ele, logo depois que havia se definido que ele e seu colega suíço Mathis Wackernagel seriam laureados neste ano com o Blue Planet Prize. A dupla elaborou o conceito de pegada ecológica – ferramenta que mostra o impacto do consumo humano sobre os recursos naturais do planeta.

O prêmio, entregue neste domingo, 17, está comemorando 20 anos. Foi criado justamente na Rio-92 pela fundação japonesa Asahi Glass em reconhecimento à excelência alcançada em pesquisas científicas e em sua aplicação na busca de soluções para problemas ambientais globais. Voltou à cidade agora para de certo modo passar uma mensagem para a conferência. Além de marcar a importância do conceito de pegada ecológica – bem quando o mundo debate novos padrões de produção e consumo –, premiou também o biólogo Thomas Lovejoy, famoso por seus estudos sobre danos da fragmentação da Amazônia na biodiversidade.

Também conversei com Wackernagel, que foi ácido em suas expectativas em relação à conferência. “Acho que há uma má compreensão entre a maior parte das delegações de que se não houver acordo, então seus países não farão nada. Não temos um problema global, temos uma tempestade global. A questão é: seu barco está pronto para a tempestade? Não temos de ter um acordo que diga que temos de fazer isso. Um país não tem de consertar o buraco no seu barco só se os outros o fizerem. Tem de consertar porque senão vai afundar.”

Para complementar, ilustrou com uma historinha da sua infância. “Quando eu era pequeno, meu tênis estava com o laço desamarrado e minha mãe falou: Mathis, você precisar amarrar seu tênis. E eu perguntei: quanto você me paga para eu amarrar o meu sapato? E ela: nada, esse é o seu problema. É a mesma coisa agora. Quanto vocês nos pagam para ter uma economia verde? Bom, mas é o seu problema”.

 A seguir, veja a íntegra da minha entrevista com Rees:

Que tipo de mensagem o prêmio para seu trabalho passa para os negociadores e o mundo?

É muito feliz que o prêmio seja anunciado no Rio, porque foi onde foi lançado o marco do desenvolvimento sustentável, há 20 anos. Mas desde então, nada aconteceu. O desenvolvimento sustentável foi definido pela comissão Brundtland no seu relatório lido na conferência. Assumiu-se ali que se usaria toda tecnologia para construir nosso caminho para a sustentabilidade. Essa foi a mensagem da Rio-92, mas nada mudou. Nas conferências subsequentes, na África do Sul e outras, a mesma mensagem foi passada. O que a análise da pegada ecológica procura mostrar são as consequências físicas e biológicas do modelo de crescimento. O mundo está além do seu limite. Nós agora estamos usando, e podemos medir isso muito claramente, mais produtos da natureza, mais peixes, mais florestas, mais solos, mais de tudo produzido na natureza do que o planeta consegue suprir. Estamos despejando mais lixo do que pode ser assimilando. Claramente estamos em um caminho insustentável. E a análise da pegada ecológica providencia uma métrica fácil que todo mundo pode assimilar, visualizar e mostra que precisamos encolhê-la. Precisamos diminuir a quantidade de energia e material sendo consumidos.

Mas parecemos cada vez mais longe dessa mudança

Mudanças sociais sem uma revolução, sem uma catástrofe, são um processo muito lento. A esperança é que com a Rio+20, o anúncio desse prêmio e toda a informação científica sobre mudanças climáticas, vamos aumentando a consciência das pessoas do mundo ao ponto que faça diferença para a mudança política. Até agora não fez muita diferença política. Não estamos fazendo um progresso significativo em mudanças climáticas e em muitas outras áreas. O que precisamos é de um forte sensação de urgência, que levante a opinião pública para pressionar o processo político a tomar ações. Se isso não acontecer, continuaremos no cenário de business-as-usual. E vemos as consequências disso no colapso financeiro.

 O senhor acredita que a Rio+20 poderia trazer um resultado que provocaria isso?

 Não. Vai ser uma camada no bolo, mas não o bolo inteiro. Vai adicionar mais elementos para a pressão, mas as Nações Unidas e boa parte dos governos oficiais na conferência estão dedicados a crescer através de melhoria tecnológica e eficiência. Mas como populações, como espécie, não queremos considerar a redistribuição da riqueza para resolver a pobreza, por exemplo. Porque isso significaria dividir, ter impostos justos, significaria o mundo corporativo contribuir mais com a sociedade. No modelo corrente global, onde favorecemos a ganância, o individualismo, onde perdemos o senso de comunidade e a compaixão uns pelos outros, é muito difícil persuadir as pessoas que a coisa mais importante hoje é cooperar pelos interesses mútuos em vez de competir para crescer mais que o outro.

 O senhor falou que mudanças costumam ocorrer nas catástrofes. Ninguém quer isso, obviamente. Como então convencer as pessoas a mudar seus desejos por mais?

 Muitos países pobres merecem ter mais. E os países mais ricos têm demais. O planeta tem 1 bilhão de pessoas com sobrepeso, que comem demais, que não cuidam de si mesmos, que só se movem de carro, que não usam seus corpos mais. É muito claro é que no nível mais alto de ganhos, a riqueza chega a ser prejudicial, eles poderiam ter menos e viver melhor. Para que os países mais pobres possam crescer para um padrão razoável, os países mais ricos deveriam retrair em seus níveis de consumo de energia e materiais. É uma questão de encolher no topo e crescer na base. Temos de convergir para um estilo de vida sustentável, adequando todo mundo. Mas hoje temos pessoas nos países muito ricos, no Canadá, por exemplo, consumindo 20 ou 30 vezes mais que pessoas nos países mais pobres. É antiético, é imoral e claramente insustentável. Uma coisa que a pegada ecológica mostra é que se todas as pessoas na Terra vivessem como na América do Norte, precisaríamos de mais três planetas. E para fazer isso, vamos destruir o planeta que temos. É por isso que vemos os estoques pesqueiros colapsando e as mudanças climáticas.

 Mas insisto, o que pode ter impacto?

 Há mecanismos simples, como preços. Até hoje não pagamos o real custo de produzir nenhuma coisa. O que fizemos na América do Norte e na Europa foi escoar nossa produção para o exterior, de modo que os danos da poluição estão atualmente na China, na Tailândia, na Ásia, mas não na América do Norte. Dizemos que nossa água, nosso ar, estão limpos porque somos ricos. Mas não é verdade. É porque nós não manufaturamos as coisas aqui. Mas os custos dessa poluição não estão no preço dos produtos. Deveríamos ter taxas sobre poluição massiva, como taxas de carbono, um sistema de “cap-and-trade” (que distribui certificados de redução de emissões entre empresas) , que reforçaria o mercado a refletir o custo verdadeiro da produção. Por exemplo, no Canadá eu pago por US$ 1,35 por um litro de gasolina, mas o preço verdade deve ser 5 ou 6 dólares. Se fosse assim, provavelmente eu usaria muito menos gasolina. Nós reduziríamos a pegada ecológica, economizaríamos combustíveis fósseis, que são necessários para o crescimento do terceiro mundo, e, se custasse tudo isso, a economia iria responder. Teríamos de ter carros três vezes mais eficientes. Ajustar os preços para refletir a realidade acabaria provocando um grande reajuste em toda a economia para reduzir consumo sem necessariamente prejudicar o estilo de vida. Esta é a forma fácil de fazer.

 Mas isso está longe de ser fácil.

 Bom, é mais fácil que lidar com uma catástrofe, com as mudanças climáticas. Mas a verdade é somos uma espécie que vive iludida ao pensar que preços baixos são sempre bons. Eles não são. Há uma certa hipocrisia aqui porque falamos em ter um mercado econômico global, mas qualquer bom economista vai dizer que para o mercado funcionar, os preços têm de dizer a verdade. As pessoas estão gastando muito dinheiro em coisas baratas e consumindo demais.

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