A crônica de Nelson Rodrigues da vitória do Brasil sobre a Itália na conquista do tri em 1970

A crônica de Nelson Rodrigues da vitória do Brasil sobre a Itália na conquista do tri em 1970

Jogo será mostrado no SporTV: escritor cai de joelhos diante do time de Pelé, Rivellino, Gérson, Jairzinho e Tostão e alfineta os que não acreditaram no "escrete"

Robson Morelli

17 de abril de 2020 | 10h35

O SporTV colocou em sua programação todos os jogos do Brasil na Copa do Mundo de 1970, para muitos brasileiros a melhor seleção que o planeta já viu, com um Pelé já coroado rei e em sua melhor forma física e técnica, se é que isso não seja redundante. Ao seu lado naquela conquista diante da Itália, outros gigantes do nosso futebol, como Rivellino, Gérson, Tostão, Jairzinho… Em 22 de junho de 1970, o lendário escritor Nelson Rodrigues publicou no jornal O Globo sua crônica sobre aquela partida, a conquista e os incrédulos no “escrete” nacional, sempre com sua pena sangrando de tintas fortes.

O texto, e outros também, pode ser lido em À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS, crônicas de futebol, da Companhia das Letras, pelo menos a edição que tenho de capa verde, com seleção e notas de Ruy Castro, outro mestre na arte de escrever. O canal pago da Globo vai mostrar a grande final em que o Brasil ganhou de 4 a 1 neste domingo, dia 19, a partir das 19h. É uma oportunidade de matar saudade de um jogo épico de 50 anos atrás e apresentar aos mais jovens um pedaço importante da história do futebol brasileiro.

Escreveu Nelson Rodrigues, na crônica Dragões de Espora e Penacho: “Amigos, foi a mais bela vitória do futebol mundial em todos os tempos. Desta vez, não desculpas, não há dúvida, não há sofisma. Desde o paraíso, jamais houve um futebol como o nosso. Vocês se lembram do que os nossos “entendidos” diziam dos craques europeus. Ao passo que nós éramos quase uns pernas-de-pau, quase uns cabeça-de bagre. Se Napoleão tivesse sofrido as vaias que flagelaram o escrete, não ganharia nem batalhas de soldadinhos de chumbo.”

E continua… “O otimista era visto, e revisto, como um débil mental… Não passa das quartas de final… Mas o Brasil ganhou de todo mundo andando, simplesmente andando. Com a nossa morosidade genial nós enterramos a velocidade burra dos nossos adversários. O curioso é que os não entendidos é que acreditavam na seleção. Por exemplo, Walter Moreira Salles. Pôs à frente de todo o movimento de apoio financeiro ao escrete.” 

Não vou reescrever aqui a crônica inteira de Nelson Rodrigues, mas me permito apenas mais trecho daquele que foi um dos jogos mais comentados do mundo, principalmente no Brasil. Foi a última Copa de Pelé e a coroação de um futebol mais leve e gracioso do que, para Nelson, o “antifutebol” dos ingleses no Mundial de 1966.

Quem fez o gol da Itália, o franciscano gol da Itália, não foram os italianos. Foi uma brincadeira de Clodoaldo. Esse notabilíssimo craque, sergipano quatrocentão, resolveu dar uma bola de calcanhar. O inimigo recebeu o presente, recebeu de graça, o passe e o gol. Ao passo que os gols brasileiros foram obras de arte, irretocáveis, eternas… Amigos, glória eterna aos tricampeões mundiais…”

Vale rever ou ver o jogo neste domingo. Faz mais de um mês que não vemos um único gol no futebol mundial, bonito ou feio, tramado ou sem querer. A saudade bate forte de ver a rede balançar.

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