A declaração de Tite de não ir a Brasília quebra uma tradição na história do Brasil

A declaração de Tite de não ir a Brasília quebra uma tradição na história do Brasil

De Juscelino, em 1958, a Fernando Henrique Cardoso, em 2002, as conquistas do futebol brasileiro sempre foram festejadas na capital

Robson Morelli

17 de fevereiro de 2018 | 15h28

Em entrevista ao Estadão nesta semana, Tite foi taxativo: “não vou a Brasília nem ganhando nem perdendo a Copa do Mundo”. A declaração do técnico do Brasil pega carona na decepção grande do povo brasileiro com nossos políticos, que comandam o País a partir da Capital Federal. Se mantiver sua declaração e ganhar o sexto título mundial para o Brasil, Tite quebrará uma tradição que começou em 1958, quando a seleção festejou sua primeira conquista das cinco que tem na Suécia. Naquela oportunidade, o escrete nacional foi recebido pelo presidente Juscelino Kubitschek em festa esportiva que poderia também alavancar o governo federal e suas intenções de crescimento. No Correio da Manhã, de 5 de julho de 1958, Carlos Drummond de Andrade escrevia:

“… No palanque armado para receber os campeões do mundo, nosso atual presidente, visivelmente satisfeito, mostrava uma ponta de inquietação… Parecia estar e não estar ali, com um olho na multidão e outro na reforma do ministério. Dirigia a vista para um e outro lado, à procura do homem ou dos homens providenciais que lhe formassem uma grande equipe, do valor daquele que vencera no futebol, mas Garrincha e Vavá para a Agricultura e o Trabalho, isso não havia… O presidente empunhava a Taça Jules Rimet ou deixava-a no parapeito, não avaliando bem a preciosidade do troféu…”

 O técnico da seleção brasileira, Tite, durante entrevista na sede da CBF Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

E assim sempre foi quando o Brasil voltava para casa com a taça nos braços. Todos nós ainda nos lembramos da última dessas conquistas, quando FHC viu o animado Vampeta descer a rampa do Planalto em cambalhotas seguidas, demonstrando o tamanho da alegria daquele grupo liderado por Felipão. Com Tite, ganhando ou perdendo, antes ou depois da disputa, não haverá nada disso.

Brasília sempre quis beber da água dos nossos jogadores quando a volta olímpica era dada. De Pelé e Garrincha a Romário e Bebeto, passando por todos os outros até Ronaldo e Rivaldo, em 2002. Futebol e política não combinam mais, não estão mais de braços dados, não comungam da mesma conquista. Tite fez questão de deixar isso claro nos dias atuais. Ele próprio nunca foi visto ao lado do presidente da CBF para não misturar as coisas, perder a sintonia e se envolver com quem não gostaria.

O fato é que o técnico da seleção não quer se deixar explorar por Brasília, ganhando ou perdendo. Disse isso talvez para não ficar dúvidas. Em 1982, a seleção de Telê Santana voltou para casa após fracasso diante da Itália, de Paolo Rossi, mas bem que poderia ter sido abraçada por nossos políticos. Afinal, foi uma das melhores da competição. Tite cortou o mal pela raiz. Não vai nem se jogar bem e perder. Nesta mesma entrevista, disse ainda que seu voto nas eleições vai para candidato que tiver “Ficha Limpa”. Não abre mão disso.

É o futebol sendo melhor do que a política. E já tem gente em Brasília torcendo contra o Brasil, dentro de campo, claro.

 

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