A falta de dinheiro, de todos os lados, vai valorizar demais cada centavo aplicado no futebol

Todos são afetados nesse momento com a paralisação dos eventos esportivos e quando o mundo sair dessa, muita gente vai repensar custos, do torcedor que paga para ver seu time ao investidor que banca a contratação desse ou daquele jogador

Robson Morelli

18 de abril de 2020 | 15h00

Esqueçam a quantias vultosas nas negociações de jogadores pelo mundo, e aqui mesmo no Brasil. Os milhões de dólares que voavam de uma mala para outra, de um cofre para outro, não vão existir mais depois da pandemia da novo coronavírus. Até mesmo na linha final, que é o torcedor que compra seu ingresso para ver as partidas, deverá haver modificação no modo como era antes. A falta dinheiro circulando pelo mundo vai fazer com todos repensem seus gastos e comecem a pensar em guardar mais e a gastar menos. A doença vai nos ensinar também no futebol.

Não me parece hoje comportamento sensato pagar milhões de dólares por um único jogador, como fez o PSG para tirar Neymar do Barcelona e como o mesmo Barcelona está disposto a fazer para recuperar o brasileiro e colocá-lo em suas fileiras novamente. As cifras do futebol devem cair assustadoramente. A folha de pagamento deve entrar num patamar mais perto da realidade dos clubes brasileiros, por exemplo.

Veja o caso do Cruzeiro, afundado em dívidas milionárias e sem ter para onde correr. Antes mesmo da pandemia, bancava uma folha mensal de R$ 15 milhões e foi rebaixado no Nacional. Esse valor despencou para R$ 3 milhões. E ainda há uma série de acertos encaminhados de modo a reduzir tudo. O Cruzeiro fez isso porque perdeu receita. Os clubes agora terão de fazer o mesmo porque perdem receitas e olham para o futebol e para seus cofres sem dinheiro para bancar três meses de paralisação e admitem gestões equivocadas.

Não dá mais para vender parte do almoço a fim de salvar o jantar. É preciso ter dinheiro em caixa para poder sobreviver, por exemplo, em caso de paralisação dos campeonatos. Bingo! Como está acontecendo agora, sem data para voltar. A maioria dos times passa o pires. Há muitos compromissos a serem honrados e pouco dinheiro guardado.

Da mesma forma, o torcedor não vai querer pagar preços altos pelos ingressos. Ou não vai poder mais. Vai tirar da boca para dar ao futebol? Não sei. O torcedor também vai mudar seus hábitos. Não vai pagar o que não vale. Vai segurar seu rico dinheiro para quando perder o emprego ou ter de enfrentar situações como as que está vivendo agora.

O futebol vai continuar sendo nosso ópio. Precisamos dele e só agora, sem ele, nos damos conta disso. Disso não tenho dúvidas. Mas os valores vão ser revistos. De tudo. Das camisas, dos ingressos, do cachorro-quente, das transações, dos salários, das bandeiras, do amendoim e do picolé de limão e chocolate. A covid-19 nos ensinou a valorizar nosso dinheiro. Somos mais avarentos. É assim que todo país sai de um guerra ou de uma pandemia. Em todos os seus segmentos.

Tudo o que sabemos sobre:

futebolcbfLiga dos CampeõesNeymar

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.