A permanência de Tite no comando da seleção significa uma mudança no futebol brasileiro

Depois de fracassar na Copa do Mundo da Rússia, treinador tem contrato renovado até o fim da edição do Catar, em 2022

Robson Morelli

25 de julho de 2018 | 13h58

A continuidade de Tite à frente da seleção brasileira depois do fracasso do time na Copa do Mundo da Rússia, conforme nos informa o repórter Márcio Dolzan, do Rio, significa muito mais do que um simples acordo entre as partes. Acordo já esperado, diga-se. A leitura que faço diz respeito muito mais à nova estrutura do futebol do que a personificação de um profissional. Pouco importa se foi com Tite ou outro. O que está em jogo é a forma com que a CBF começa a tratar o futebol da seleção brasileira. Há mais competência na entidade nesse sentido. Num passado não muito distante, a emoção e os interesses financeiros ditavam o tom, a escolha e as decisões.

WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Não havia “Cristo” que sobrevivesse a campanhas ruins no comando da seleção. Em Copa do Mundo então, era degola certa. Teve treinador que foi demitido em aeroporto após fracassos com o Brasil. Assim eram as pessoas que comandavam o futebol da seleção brasileira. Vale dizer que algumas delas estão presas, outras já morreram e outras mais se escondem em delações para apaziguar possíveis penas na Justiça.

Bem ou mal, ainda com muita desconfiança das coisas que acontecem nos corredores da CBF, sob a influência de cartolas que ficaram para trás e estão enrolados na Justiça também, a decisão me parece que foi tomada em função não só de resultados ou interesses outros, mas de organização e insistência de que o Brasil pode melhorar do jeito que está, com o amadurecimento de Tite, o escolhido, e de seus assessores, de alguns jogadores também.

É disso que estou falando. A Alemanha manteve seu treinador por anos e agora mesmo renovou mais uma vez com Löw depois do fracasso na Rússia – foi eliminada na primeira fase. A França, campeã do mundo, tinha Deschamps por seis anos e ainda terá por mais dois. A CBF aposta no trabalho e não nas pessoas que fazem o trabalho, embora, em muitos casos, seja difícil separar isso.

Tite não é mais unanimidade. Terá de se provar competente novamente. Descobriu que ganhar as partidas na América do Sul não conta tanto. Vai precisar resolver problemas com alguns jogadores, como Neymar. Terá de aprender a dizer ‘não’ para eles, para os pais de alguns deles. Tem de tirar lição da Rússia se quiser melhorar no Catar. Vai precisar de mais coragem. Em alguns casos, terá até de educar. O Brasil poderia ter vencido a Bélgica. A bola poderia ter entrado na derrota de 2 a 1. O fato não é esse, embora também seja.

Tite também terá de repensar seu trato com a mídia e com a torcida brasileira. Seus jogadores na Rússia jogaram por eles mesmos e não pelo povo brasileiro apaixonado por futebol. Isso me pareceu notório. Tite se perdeu em fechar tudo. Nunca uma seleção foi tão cercada como a dele na Rússia. Isso, espero que entenda, é negativo e não positivo. Os jogadores só eram felizes entre eles. Errou feio o treinador nesse ponto. Não poderá repetir esses erros, por aí é…

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