A seleção precisa se salvar mesmo a despeito de tudo o que a envolve nesse momento

Corrupção, falcatruas, medo de ser preso, mandos e desmandos. Nada disso pode matar o Brasil, embora é cada vez mais comum ouvir nas ruas que o País deveria ficar fora da Copa do Mundo da Rússia, fato inédito na história do Brasil, se isso acontecer

Robson Morelli

11 de outubro de 2015 | 22h53

Adoro Fortaleza. Estive lá nas duas vezes em que a seleção brasileira jogou no Castelão pela Copa do Mundo. Foi lá que Neymar deixou o campo sem saber ainda que havia fratura as vértebras para dar entrada no hospital após aquela falta forte de Zuñiga na partida contra a Colômbia. Corri para o local antes mesmo de a partida acabar e dei um plantão básico na porta do hospital. Cheguei a entrar com a ajuda de uma fonte, mas depois o cerco se fechou e todos os repórteres tiveram de esperar por informações do lado de fora. Havia muita gente, a maioria moradores do bairro na esperança de ver o craque. A Copa acabou em Fortaleza para Neymar. Sem ele, o Brasil não teve forças para continuar como se comprovou mais tarde num dos piores, talvez o pior, episódios do futebol brasileiro.

 

A CBF e Dunga escolheram Fortaleza para mandar seu primeiro jogo das Eliminatórias em casa. Nesta terça, o time encara a Venezuela no mesmo Castelão em que Neymar foi covardemente atingido pelas costas. Há um motivo para isso. Acredita-se que o torcedor da cidade é mais hospitaleiro com o time, que não vaia nem cobra. No Rio e em São Paulo, por exemplo, Dunga imagina que a seleção seria mais pressionada, vaiada até. Primeiro, parece um absurdo subestimar a capacidade do povo de Fortaleza de entender e criticar o Brasil nesse momento. De norte a sul do País, todos olham para a seleção e não enxergam nada. Podem até ver bons jogadores, mas sabem, inclusive o cearense, que não há um time capaz de empolgar nem mesmo o já empolgado nordestino. Empolgado com a vida, com o trabalho, com a simplicidade, com o que lhe sobra do Brasil. Mas não com a seleção.

 

Daí a indignação de achar que o Brasil em Fortaleza se dará melhor do que o Brasil em Porto Alegre ou Belo Horizonte, onde o time apanhou da Alemanha por 7 a 1, diga-se. A CBF tem de pensar menos no folclore do futebol e mais em escolher as pessoas certas e capazes para mudar o cenário. Escolher Fortaleza seria ótimo não fosse pelos motivos alegados. Os jogadores se acham em condições de reverter esse quadro. Concordo com eles, salvo um ou outro, mas aí é preferência. O problema é no comando, na forma de Dunga pensar o futebol, na pouca coragem que tem de mandar o Brasil para cima dos rivais, aqui ou fora, sempre como medo de perder, na insistência em ter um meio de campo limitado, preso, burocrático a maior parte do tempo. Contra o Chile, na primeira derrota em estreias em Eliminatórias, a seleção foi tímida. Parecia jogar pelo empate ou por uma bola. Dessa forma, permite que todos se igualem com a gente. Nossos jogadores são melhores. Mas nosso time é como os outros, talvez inferior a alguns. E todos se sentem em condições de derrotar a seleção brasileira.

 

A seleção também não pode viver a reboque dos problemas da CBF, sofrer com as acusações de corrupção e de um presidente com medo de ser preso. Está tudo errado. O andar de cima está podre. Imagino que se fosse em outros tempos, muitos jogadores já teriam se rebelado. Imagino que Sócrates e Casagrande, ícones da Democracia Corintiana, não aceitariam vestir a camisa do Brasil nessas condições. E outros também.

 

Na onda dos mandatários ameaçados de deixar o cargo, Marco Polo del Nero é mais um deles. A desconfiança é grande sobre sua honra, mesmo sem ter nada provado. Sabe que seu nome ronda a CPI do Futebol em Brasília, e que ele será chamado a depor na hora certa. Certamente. A corrupção se espalhou pelo futebol. Todos resolveram mexer no que não é deles, fazer laços ilícitos, corromper e se deixar corromper na certeza de que nunca seriam pegos. As provas vão aparecendo e a imprensa ávida por dar a notícia. O cerco vai se fechando. Seleção nenhuma passa impune a isso. Daí o desejo de muita gente de ver o Brasil fracassar em campo na esperança de que algo mude. Ficar fora de uma Copa poderia ser a gota d’água desse copo quase cheio. Não. Entendo que o povo brasileiro, o torcedor, não pode pagar mais esse preço. O cenário é perfeito para renúncias, trocas, limpezas, recusas. E salvando a seleção.

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