Achei num sótão a bola da despedida de Pelé da Seleção

Robson Morelli

23 de outubro de 2010 | 20h38

Dragolgub Lisancic formou-se juiz de futebol na 1ª turma de Belgrado, ex-Iugoslávia, onde morou até 1953, quando chegou ao Brasil. O futebol nunca foi seu esporte, mas era um meio de vida. Em seu país, todos se dedicavam à natação. “Não saber nadar em Belgrado era uma vergonha”, diz. Drago chegou a ser tenente do Exército. Detestava o comunismo. “Era uma tristeza, me lembro bem.” Passou pela Áustria e chegou a Santos de navio, fugido das confusões políticas de sua terra.

Teve dois filhos, Jorge e Alexandre, no Brasil. Foi Jorge quem encontrou aquela bola murcha no sótão da casa do pai há pouco mais de um ano. Drago já havia completado 86 anos e visto a vitalidade de outras épocas se perder no passado e nas histórias. Naquela bola havia algumas assinaturas quase ilegíveis pelo desgate do tempo e do material. Procurou o pai e quis saber mais sobre o artefato que deixaria qualquer criança brasileira feliz da vida.

Drago contou sua história. Com aquela bola, Pelé havia feito sua última partida pela Seleção Brasileira, em18 de julho de 1971, no Maracanã, contra a Iugoslávia. Não havia muitos iugoslavos no país naquela época e Drago arrumou um jeito de ser o intérprete da equipe visitante no jogo festivo que acabou empatado por 2 a 2. Sua única condição foi imposta ao então massagista do escrete canarinho, Mário Américo, de quem já era conhecido.

“Pedi a bola do jogo. E assim que o juiz apitou o fim da disputa e todos foram para cima do Pelé, o Mário saiu em disparada e apanhou a bola para me entregar. Naquele mesmo dia, peguei muitos autógrafos nela, de brasileiros e dos jogadores da Iugoslávia também”, contou Drago.

Pelé foi um dos que assinaram a bola, que depois correu por lugares menos nobres que um campo de futebol, como no programa de Flávio Cavalcanti, jornalista e apresentador de tevê.

Dragolgub Lisancic teve seus minutos de fama no País que adotou como seu. O tempo passou, ele envelheceu e a bola foi parar no sótão, onde seu filho Jorge a encontrou velha, murcha e enrugada.

A família pensa agora em vender o artefato e toda sua história para quem quiser comprar. Gostaria muito que a bola da última partida de Pelé na Seleção Brasileira fosse para um museu do futebol ou para um museu do Rei.

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