Até quando vamos ver nossos filhos morrerem no futebol?

Robson Morelli

22 de fevereiro de 2013 | 11h59

Imagine que um menino, torcedor do mesmo time do pai, combine com alguns amiguinhos para ver uma partida de futebol no estádio em sua cidade ou próxima dela. Imagine que esse jogo seja válido pela Libertadores, uma competição que tem muito valor e tradição na América do Sul. Imagine que com muito custo o garoto consiga comprar o ingresso e passe a semana em enforia, à espera da partida, sonhando alto.  Imagine que esse menino, inocente em seus 14 anos apenas, seja atingido por uma bomba ou artefato que lhe valha durante o jogo e MORRA. Imagine agora que esse menino seja seu FILHO.

O garoto boliviano Kevin Douglas Beltrán Espada, de 14 anos, foi morto no jogo do Corinthians com o San José, no Estádio Jesús Bermúdez, em Oruro. Mais ou menos nessas condições. É mais um na estatística da violência no futebol brasileiro, embora seja boliviano. Há anos alertamos para o fato da total perda de controle das instituições em relação às torcidas organizadas no futebol do Brasil. O episódio foi provocado pela torcida do Corinthians, a mesma que matou um palmeirense em emboscada no Paulistão passado e a mesma também que invadiu a apuração do carnaval de São Paulo em 2012 para tomar os votos dos jurados e dar fim ao resultado, mas poderia ser provocado por qualquer outra dita Uniformizada. São todas iguais. São todas com a faca nos dentes, prontas para provocar o rival, mesmo não sendo rival, como era o caso do time de Oruro.

O fato é que precisa ser feito muito mais que apenas condenar a torcida de modo geral, fechando os portões para o torcedor nas partidas do Corinthians, como a Conmebol fez em medida inicial, e rápida, que ainda será confirmada em até 60 dias. Mas já é o começo. O clube vai perder dinheiro, em média R$ 8 milhões, sem a renda das bilheterias na Libertadores com a punição. Já tinha vendido mais de 80 mil ingressos para os três jogos na fase de grupos. Alguns torcedores identificados em Oruro também estão presos. Também já ajuda.

Mas ainda é pouco. O tempo vai passar, esses caras serão esquecidos, a torcida que provocou a morte do garoto vai ‘desparecer’ por meses e a dor da perda ficará restrita apenas aos corações dos familiares do menino de 14 anos. Esse filme todos nós já conhecemos.

E nada vai mudar até a próxima morte. Esse é o problema. Muita gente séria já tentou dar cabo às ‘instituições’ organizadas. Todos eles fracassaram. A polícia prende e o justiça libera. Até quando?

O CORINTHAINS PERDE A CHANCE DE DAR EXEMPLO
O Corinthians provou nas últimas temporadas ter aprendido com situações adversas e deixado o fundo do poço, quando o clube estava envolvido no noticiário policial, para ganhar o mundo. Cresceu e tornou-se exemplo para todos no Brasil. Poderia continuar nessa vanguarda no que diz respeito à mudança em relação ao tratamento das torcidas organizadas. Mas ao que se vê até esse momento, perde a chance de dar o exemplo mais uma vez. A diretoria do clube não aceita a punição, a culpa ou como queiram chamar o episódio que aconteceu na Libertadores. E vai correr atrás de seus direitos. Ou seja: vai lutar para deixar tudo como está. Uma pena. Pensa apenas no dinheiro que deixará de ganhar.

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