Basta! PSG e Istanbul Basaksehir abrem caminho para um futebol sem racismo e engajado

Basta! PSG e Istanbul Basaksehir abrem caminho para um futebol sem racismo e engajado

Após ofensa racial vinda do quarto árbitro, jogadores do dois times, entre eles Neymar, abandonam o campo de jogo ainda no primeiro tempo, em gesto sem precedência na Liga dos Campeões

Robson Morelli

08 de dezembro de 2020 | 19h44

O futebol não será mais o mesmo a partir desse 8 de dezembro de 2020. Em meio a tantas mazelas numa temporada corroída pela covid-19, dois clubes resolvem dar um basta às injúrias raciais dentro de campo, abrindo caminho para uma nova era, sem racismo, de igualdade e com jogadores mais engajados do que nunca. Na mesma semana, a conceituada revista americana Sports Illustrated escolheu esportistas como personalidades do ano por sua luta contra o racismo nos Estados Unidos, entre eles LeBron James e Patrick Mahomes.

Desta vez quem decidiu fazer história foram os jogadores de PSG e Istanbul Basaksehir, revoltados com a atitude de um dos árbitros da partida, o quarto, por ofensas racistas a um membro da comissão técnica do time turco. O jogo era pela Liga dos Campeões da Europa, a mais famosa do mundo. O árbitro romeno Sebastian Coltescu ofendeu o camaronês Pierre Webó, ex-atacante e membro do clube de Istambul. A ofensa teve cunho racista. Os jogadores teriam ouvido e se revoltado. Atletas dos dois lados se reuniram ali  mesmo e decidiram abandonar o campo. Não se sabe se eles tomariam a mesma atitude tivesse o xingamento partido de torcedores. Quero acreditar que sim. Mas o que os 22 jogadores fizeram, no calor da ofensa, foi algo sem precedentes, capaz de mudar a história do futebol.

Neymar e Mbappé lideraram os atletas do Paris. O senegalês Demba Ba fez o mesmo do lado do time turno. Juntos, os times se mostraram muito mais fortes e fortalecidos, e seus jogadores foram protagonistas, colocando a Uefa contra a parede para posturas mais sérias em relação ao racismo no futebol. Campanhas precisam ser feitas, de modo a alertar a todos que jogos poderão ser adiados, jogadores poderão se recusar a atuar, estrelas se juntarão para dizer “não”, sem medo de serem punidas.

Basta! Foi o recado para Uefa e Fifa e para o mundo todo do futebol, inclusive no Brasil. O episódio vai ser um divisor de águas dentro de campo. Racismo é crime. Mais do que isso, é uma ofensa na alma. A coragem desses jogadores, sem medir consequências, deve ser ressaltada. Esses 22 jogadores representam todos nós, que nos incomodamos e sempre vamos nos incomodar com a discriminação entre as pessoas, discriminação de qualquer natureza.

Orgulho de Neymar, de Mbappé, de Demba Ba pela liderança em campo num ato nobre e necessário. Basta! Eles não foram ofendidos, mas já sentiram isso antes, com certeza, mesmo que apenas num olhar. Assim agem os racistas. Em muito casos, ferem somente no jeito de olhar, o que dirá com palavras proferidas. Chega de racismo, foi o recado desses jogadores. Eles serão ouvidos. Muitos outros vão se manifestar, não tenho dúvidas disso. E mais atos como esses serão tomados se preciso, até que entendam que todos somos iguais.

Tudo o que sabemos sobre:

futebolNeymarracismoPSGIstanbul

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.