Blatter renuncia ao cargo de presidente da Fifa antes de virar réu da investigação do FBI

Blatter renuncia ao cargo de presidente da Fifa antes de virar réu da investigação do FBI

Cartola se achava acima do bem e do mal e jamais suspeitou de tamanha intervenção em sua casa

Robson Morelli

02 de junho de 2015 | 22h56

O mundo do futebol ficou perplexo com a notícia desta terça-feira sobre a renúncia de Joseph Blatter ao cargo de presidente da Fifa, decisão tomada quatro dias depois de ele ser reeleito para seu quinto mandato e diante de um mar de lama em sua própria casa. Blatter fez um pronunciamento curto, mas enfático. Em francês, o dirigente enumerou alguns motivos que o levaram a entregar o trono, logo ele que nunca demonstrou qualquer desapego ao poder. Seu discurso para continuar e concorrer à eleição era o de que ‘ainda tinha muita coisa a fazer para o futebol mundial’ e que ‘sua missão não estava completa’.
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Blatter sai de cena num momento conturbado da Fifa, talvez o mais frágil desde que assumiu o posto das mãos de João Havelange em 1998. A onda de corrupção varreu alguns de seus principais membros, como o brasileiro José Maria Marin, acusados pelo FBI, dos Estados Unidos, de corromper o esporte, e parece que não deixará pedra sobre pedra no templo do futebol. Sete, inclusive Marin, foram presos, mais de 14 arrolados nas investigações de lavagem de dinheiro, corrupção e outros crimes.

Tudo isso motivou Blatter a desistir. Talvez mais. No dia da reeleição, sexta-feira, ele comentou não temer ser preso e atestou que os corruptos da Fifa eram minoria, e que nada mudaria sua disposição de continuar trabalhando e tentando limpar a sujeira da qual faz parte, afinal, a Fifa manda nas confederações e, como Blatter gostava de dizer, a entidade tem 209 países filiados, mais que a ONU. Então, é inegável que a lama também está em seu paletó.

O presidente disse que, depois de conversar com seus pares, percebeu não haver um consenso sobre o seu nome para comandar o futebol. “A eleição acabou, mas os desafios da Fifa não. A Fifa precisa de uma profunda revisão.” Blatter, que se achava predestinado a ser esse cara, voltou atrás, não se sabe ao certo por quê. Não se viu com forças nem comando para fazer o trabalho. O cargo ficará vago até as próximas eleições.

Alguns outros dirigentes, principalmente do Brasil, como Ricardo Teixeira e até J. Hawilla, gente da mesma laia de Blatter, abandonaram seus cargos do nada e sumiram do mapa quando sentiram que a Justiça poderia bater em sua porta. Sem aviso prévio, alegando problemas particulares, de saúde até, entregaram cargos conseguidos em anos de batalha. Fizeram de tudo para ocupar postos relevantes no futebol e tiveram de entregá-los de uma hora para outra para não serem presos, como se comprovou agora, após as investigações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Notícias vinda dos EUA já dão como certa a condição de Blatter de réu no processo do FBI. O todo poderoso chefão da Fifa está também sendo investigado e terá de dar esclarecimentos. Há sim uma intervenção na Fifa. Como ele próprio disse em seu discurso quarta-feira, vendo seus parceiros sendo presos, mais coisa virá por aí. As Copas da África e as duas próximas, da Rússia e Catar, estão sendo investigadas. A do Brasil ainda não. Ainda não. Marco Polo del Nero, presidente da CBF, disse não temer nada, assim como Blatter dizia dias antes de largar o osso.

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