Brasil não pode se inspirar nos países da Europa para retomar o futebol. É um risco para todos

Apesar de o presidente Jair Bolsonaro defender a volta e trabalhar para isso junto a dirigentes esportivos, não há clima nem cabeça para as pessoas torcerem pelos seus times

Robson Morelli

21 de maio de 2020 | 07h00

Ainda não dá para o Brasil mirar o futebol europeu e se animar em seguir seus passos. Não é hora. O País está pelo menos dois meses atrás de tudo o que ocorreu na Europa em relação à pandemia. Abrir gradativamente como os europeus estão fazendo é vontade dos brasileiros, não tenho dúvidas disso, afinal, quem não quer retomar sua vida, ver o sol brilhar fora de casa e fazer aquelas pequenas coisas que nunca demos tanto valor. Mas não é hora.

Estamos enterrando mais de mil pessoas por dia, superamos os Estados Unidos nesse quesito nas últimas 24 horas. Nesta quarta, foram 888 pessoas mortas. O futebol brasileiro não pode voltar só porque o presidente Jair Bolsonaro deseja e trabalha para isso, como fez chamando para sua mesa os dirigentes de Flamengo e Vasco. Também não deve voltar porque os cartolas precisam.

O futebol brasileiro não é para essa gente. O futebol brasileiro é jogado para o torcedor. E o torcedor, o brasileiro comum, não está com cabeça nem no clima para ver seu time em campo. Não enquanto a doença não estiver controlada. Não enquanto as UTIs dos hospitais estiveram lotadas. Não enquanto o governo não conseguir pagar a ajuda financeira prometida e levar comida para dentro da casa dos desempregados, que são muitos, mas já eram antes de pandemia.

A Europa vive outro cenário. A doença lá, em seus principais países, ou nos mais castigados pela covid-19, está mais controlada, menos gente morre, os hospitais estão respirando melhor. Muitos já foram enterrados, é verdade. A curva é para baixo, felizmente. É o oposto da nossa curva, que nem é mais uma curva para cima. É uma reta mesmo. Daí a falta de sensibilidade de quem clama pelo futebol. Não é hora, repito.

Os jogadores deveriam não concordar com isso, segurar a vontade de fazer o que mais amam porque na verdade o que mais amam está em suas casas. São seus filhos, mulher, pai e mãe. E felizes aqueles que ainda têm avôs. O futebol pode esperar. Não se enganem.

A CBF está com Jair Bolsonaro, assim como clubes como Flamengo e Vasco, e muitos outros. Querem voltar porque vivem do futebol. Mas não é hora. A Federação Paulista de Futebol, por enquanto, mantém seu discurso de só voltar quando as autoridades de saúde do governo Estadual der sinal verde. O governador João Doria não deve autorizar isso nos próximos meses. A CBF fala em retomar as partidas em junho, mas sem torcida. Prevejo uma disputa de convencimento. Tomara o bom senso prevaleça.

 

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