Bruno, apesar de tudo, provocou reação de admiração nas pessoas em Varginha

Bruno, apesar de tudo, provocou reação de admiração nas pessoas em Varginha

Robson Morelli

15 de março de 2017 | 11h03

Tentei entender como uma pessoa condenada em primeira instância a 22 anos de prisão por ter matado e esquartejado sua vítima, uma mulher, pode provocar o respeito e admiração em pessoas comuns, e confesso que não cheguei a nenhuma resposta que me convencesse plenamente. Refiro-me, claro, ao goleiro Bruno, recém-contrato pelo Boa Esporte, um time familiar da cidade de Varginha, em Minas Gerais, que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro. Foi exatamente essa a reação que parte das pessoas que foram ontem à apresentação do goleiro no clube teve ao seu lado. Selfies e autógrafos de meninas, menores de idade, imagino que levadas ao local pelas mãos de pais e mães. Bruno não é um sujeito perigoso, apesar de não demonstrar qualquer ressentimento ao que fez. Ele é condenado pelo crime contra Eliza Samudio, cujo corpo não foi encontrado até hoje.

WS1 SÃO PAULO - 14/03/ 2017 BRUNO / TREINO - ESPORTES - O goleiro Bruno chega ao Centro de Treinamento da equipe do Boa Esporte para treinar nesta tarde terça- feira, 14, e é recebido por torcedores na cidade de Varginha, no sul de Minas Gerais após ser apresentado. Bruno estava preso desde 2010, acusado pelo assassinato de sua ex-amante, Eliza Samudio. Em 2013, ele foi condenado a 22 anos e 3 meses pelo sequestro, assassinato e ocultação de cadáver de Eliza, mas, como não teve seu recurso julgado desde então, conseguiu sua liberdade provisória no dia 24 de fevereiro, por decisão do ministro Marco Aurélio Mello, do Superior Tribunal Federal (STF). FOTO:WERTHER SANTANA/ESTADÃO

FOTO:WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Bruno está solto por um desses problemas na Justiça no Brasil, que ainda não julgou o caso em outras instâncias. A lei permite isso, a soltura, o direito a trabalhar e de ter liberdade até que a condenação seja, de fato, ratificada em outras esferas acima da primeira instância. Desse ponto de vista, apesar da polêmica da decisão de libertar um sujeito condenado, há brechas na lei contra as quais nada temos a fazer, a não ser protestar, como algumas mulheres engajadas de Varginha fizeram na cidade.

Bruno é famoso, ou foi, ou é um famoso de terceira categoria (jogou no Flamengo), e isso, por si só, já seria motivo para provocar a curiosidade das pessoas, o desejo de se aproximar. Somos assim. Chegar perto de alguém que está no noticiário, mesmo que esse noticiário seja negativo, deve ter algum propósito nessa onda de posts e cliques nas redes sociais, e tudo mais. Ao futebol, coube dar nova chance ao condenado, como se isso fosse uma premissa do nosso futebol. Nunca foi. Basta acompanhar as peneiras Brasil afora. É sabido que o que separa um garoto do seu sonho pode ser a quantidade de dinheiro que seu pai está disposto a oferecer ao treinador, dirigente, empresário ou ‘profissional’ que o valha. Então, esse discurso de ressocialização não cola. Mesmo se o futebol fosse estender a mão aos seus marginais, e há outros, teria primeiro de se assegurar da pena cumprida. E até onde se sabe, não é esse o caso de Bruno.

Por fim, somente uma pessoa insensível ou mesmo desprovida de qualquer sentimento de remorso ao que fez poderia superar tamanho inferno que deverá virar a vida de Bruno na própria Varginha ou nos estádios na Série B onde o Boa Esporte for jogar. As pessoas são maldosas por natureza, não todas, mas imagino que o goleiro deverá enfrentar provocações diversas em sua retomada, isso se a nossa Justiça não o tirar novamente das ruas para que ele cumpra sua pena, após novo julgamento. Tentei entender até as razões do Boa para tal contratação e não consegui, mesmo a despeito de o clube mineiro ter um trabalho de resgate de pessoas que se perderam na vida em algum momento. Bruno não cometeu um deslize. Bruno foi condenado por um crime brutal, e isso precisava ser levado em consideração. Imagino que não tenha sido, nem mesmo no ato na soltura.

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