Cássio e Benedetto, herói e anti-herói de uma decisão que entra para a história da Libertadores

Cássio e Benedetto, herói e anti-herói de uma decisão que entra para a história da Libertadores

Goleiro do Corinthians brilha no jogo e na decisão de pênaltis, enquanto atacante do Boca Juniors desperdiça duas cobranças de tiro livre e é determinante para a eliminação do seu time

Robson Morelli

06 de julho de 2022 | 09h16

Cássio está prestes a completar 600 jogos no Corinthians. É uma vida. Recentemente, recebeu ameaças de morte de torcedores que não estavam contentes com suas atuações. Já foi chamado de ‘frangueiro’, de ‘mão de alface’ e de outras denominações que não retratam sua história de forma alguma. Os anos avançados não podem tirar do jogador suas glórias. Nem de Cássio nem de nenhum outro atleta. Cássio levou o Corinthians para as quartas de final da Libertadores, ao segurar o Boca Juniors dentro de La Bombonera. Não é fácil. Empate sem gols no tempo normal, repetindo o resultado no Brasil, e pegando pênaltis na decisão dos tiros livres. Cássio foi herói.

Benedetto tinha tudo para ser mais reconhecido do que já é pelos torcedores do Boca. Atacante fazedor de gols, já deu mostras disso em outras ocasiões da Libertadores, por exemplo, diante do Palmeiras. É temido pelos zagueiros e há anos é apontado como o caminho das vitórias do seu time. Sua história de vida é vitoriosa desde as bases, quando teve de parar após a perda da mãe. Não havia dúvidas de que poderia entrar para a história da Libertadores diante do Corinthians na noite desta terça-feira.

Foto: Corinthians

Dos 22 jogadores em campo, talvez ele fosse o mais efetivo de todos, com bom relacionamento com o gol. Mas Benedetto se transformou no anti-herói do Boca Juniors, perdendo não um, mas dois pênaltis, um no tempo normal e outro na disputa após o empate. Ele não bateria o segundo pênalti, mas pediu para cobrar.

Ao comentar sua façanha após o gol, com defesas milagrosas e dignas de sua história e tamanho, Cássio disse que ninguém joga sozinho, que não se ganha ou perde na individualidade, embora erros aconteçam. O goleiro poderia ter pego suas coisas após as ameaças, que envolveram sua família também, e ido embora. Tinha opções. Preferiu ficar e cumprir seu destino. Sabia que não estava acabado nem merecia a ira do torcedor, que deve estar envergonhado nesse momento.

Cássio não tripudiou seus ‘inimigos’, tampouco vai mudar seu jeito e forma de pensar o futebol e a carreira. Domingo já tem jogo, e é contra o Flamengo, pelo Brasileirão. Ele estará lá, tentando dar o seu melhor, talvez para nunca mais ser apontado pelo torcedor corintiano como um perna de pau.

Benedetto foi condenado por sua própria gente. Os gols desperdiçados e os pênaltis errados, um na trave e outro na “lua”, marcaram sua atuação. Ele terá de jogar muito para recuperar a confiança da torcida. Vive hoje o que Cássio viveu no passado, sendo questionado e condenado, responsabilizado pela eliminação do time argentino na Libertadores. Em 2018, ele fez os dois gols do Boca na classificação diante do Palmeiras. Esteve perto de jogar no futebol brasileiro, no  São Paulo e no Atlético-MG. Terá dias duros, mas sabe que no fim de semana tem de entrar de novo em campo e fazer o seu melhor.

O futebol cria heróis e anti-heróis. Cássio e Benedetto são mais dois deles. O futebol também tem o poder de recontar histórias de seus personagens a cada 90 minutos. Assim será com Cássio e Benedetto.

Foto: AFP

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