CBF deveria interceder para que o jogo da seleção brasileira com o Uruguai passasse em TV aberta

Sem passar na televisão para todo o País, de norte a sul, leste e oeste, time de Tite e de Neymar pode cai no esquecimento do seu maior parceiro, o torcedor

Robson Morelli

17 de novembro de 2020 | 10h30

A CBF sempre tomou suas decisões pensando no livre mercado quando o assunto era vender os direitos de transmissão da seleção brasileira. Repassava esses direitos por milhões de dólares com a certeza de que seu maior e talvez único bem fosse mostrado a quem mais interessa, o torcedor. Isso mudou. Os jogos das Eliminatórias da Copa do Catar não estão na TV aberta. Uruguai e Brasil não vai passar em nenhum canal sem que se pague por ele. Nunca foi assim.

WILTON JUNIOR/ESTADÃO

A Rede Globo sempre comprou esses direitos de transmissão e levou a partida para todos os rincões do Brasil. A seleção é uma atração, assim como o futebol. Sem a Globo, não há mais transmissão no momento. A emissora comprou os jogos do Brasil dentro do País, como mostrou Brasil x Venezuela semana passada. Também fechou com as partidas da Argentina, por entender que o time de Messi é um bom produto. Os jogos da seleção brasileira fora do Brasil devem ser negociados com cada federação nacional, a do rival, ou com uma empresa contratada pela Conmebol para fazer isso.

Ocorre que o dinheiro é alto, na casa dos US$ 1,5 milhão, o equivalente a R$ 8,1 milhões por jogo. A Globo não estão mais com essa bala para pagar. Ou não quer. É seu direito. O pacote completo das Eliminatórias, partidas de ida e volta, bate nos R$ 100 milhões, com descontos. Sem a Globo, nenhuma outra emissora aberta do País mostrou-se interessada em bancar a partida. Conversas aconteceram nesse sentido, mas nenhuma adiantou. E até a manhã desta terça-feira, Uruguai x Brasil não seria transmitido em TV aberta. Eliminatórias são jogos de Copa do Mundo, não diretamente da competição com todos os classificados, mas é a fase que leva os times para o Mundial. O próximo será em 2022 no Catar. Portanto, é jogo importante.

A CBF deveria intervir nesse assunto. Fazer combinações com as confederações sul-americanas para encontrar uma solução. Deveria pensar no torcedor. Se é difícil para as emissoras do Brasil, também é para as emissoras sul-americanas de modo geral. Um pool de TVs seria excelente. Não ver o Brasil em campo significa não mostrar seus patrocinadores, fornecedores de uniformes, empresas que pagam para aparecer ou para se juntar a um produto que elas entendem ser valioso. Que seja apenas para os negócios.

Tudo é negócio, mas nem tudo pode ser. A seleção desperta interesse, mesmo em baixa. Na estreia do Brasil na Copa do Mundo da Rússia, em 2018, a audiência da Globo bateu em 51 pontos, uma das maiores da emissora com futebol e outras programações. O jogo foi contra a Suíça. A TV Brasil, estatal que mostrou a partida contra o Peru a pedido do presidente Jair Bolsonaro, nessas Eliminatórias, teve sua maior audiência na história: 3 pontos. Não foi maior porque as pessoas não tinham a informação da transmissão e muitos não sabiam sequer sintonizar o canal.

Sem mostrar a seleção de Tite e Neymar, a CBF corre risco de fazer com que seu maior produto caia no esquecimento do torcedor. E isso é o que de pior poderia acontecer para ela. Sem interesse, não há comércio de camisas, não há patrocinadores, não há torcedores dispostos a comprar produtos e ir aos estádios, quando os portões forem abertos novamente. É um bola de neve que começa a rolar.

A TV fechada, os canais pagos, merece nosso respeito por ainda acreditar no time nacional, mas ela está longe de atingir a massa. A carteira de clientes é pequena e o produto fala com pouco gente dos 210 milhões de brasileiros. Segundo a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), no primeiro semestre deste ano, 600 mil clientes deixaram de assinar os canais. Os contratos ativos no meio do ano eram de 15,1 milhões. Daí a necessidade de a CBF intervir, agir, mudar o que começa a nascer na era do streaming, ainda engatinhando no interesse e posse dos torcedores.

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