CBF e Federação Paulista dão de ombros para o caso Héverton, da Portuguesa

Entidades que comandam o futebol brasileiro e paulista, assim como os esportistas de modo geral, tratam o episódio como se ele não fosse grave

Robson Morelli

14 de novembro de 2014 | 11h17

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O Ministério Público tem dado ao caso Portuguesa uma seriedade que não vejo entre os personagens do futebol brasileiro. Dentro do MP, a escalação irregular de Héverton por dinheiro, conforme defende o promotor do caso, tem o mesmo peso da Máfia do Apito, de 2005, em que árbitros faziam resultados para ganhar com apostas. Tudo bem que o caso do Canindé é isolado, embora possa ter envolvido outros interessados, como Flamengo e Fluminense, que também já se pronunciaram em defesa de suas honras. Mas o peso de forçar uma situação, não um resultado, mas a perda dos pontos e consequentemente um rebaixamento, como de fato aconteceu, é tão baixo quanto qualquer armação no futebol.

A Portuguesa jogou na lama o futebol brasileiro de novo. Patrocinadores e parceiros do clube paulista podem reclamar na Justiça direitos perdidos e honra ferida, sobretudo sabendo agora dessa armação, de acordo com o MP. O torcedor comum do clube pode pedir seu dinheiro de ingresso de volta. A televisão, que pagou cotas na ordem de R$ 18 milhões ao clube do Canindé, pode cobrar a devolução do montante por acreditar que foi usada e vítima de uma falcatrua. E assim vai. A lista de reclamantes, por direito de fato e por direito moral, pode ser grande. Daí a importância que o MP dá ao caso.

A instituição futebol é muito forte no Brasil. Fosse na Suíça, talvez o assunto merecesse rodapé de jornal. Aqui não. E ninguém do meio esportivo mostra-se tão indignado assim. A CBF, mãe de tudo, nem sabia das investigações do MP. A Federação Paulista de Futebol, que tem a Portuguesa como uma filiada desde sua fundação, não está nem aí. Comporta-se como se não fosse com ela, como se o caso fosse delito de menor de idade. Coincidentemente, seu presidente, Marco Polo del Nero, é o mesmo da CBF.

Os suspeitos do Canindé, como o ex-presidente Manuel da Lupa, manifestaram-se com total indignação aos novos fatos, colocando-se como vítimas nessa condução toda. Da Lupa disse que jamais, jamais, venderia a Portuguesa, sejam para quem for. Outros calam-se, na certeza de que o caso Héverton vai prescrever. Não vai. O MP promete ir até o fim. Até o fim significa sirenes tocando alto no Canindé. O Corinthians viveu situação parecida no tempo da MSI, por motivos outros, mas com o envolvimento do MP, Gaeco e Polícia Federal. Cabeças rolaram.

O promotor do caso tem certeza de que há dinheiro envolvido. Os próximos passos são identificar os corruptos e os corruptores, quem recebeu e quem pagou pela trapaça. A torcida da Lusa já tem seu Judas, o presidente Manuel da Lupa, que é pressionado para ser banido do clube. As emoções no Canindé estão à flor da pele, mas é preciso ter cuidado na condução do caso, inclusive na imprensas, para não condenar inocentes.

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