Clubes e jogadores deveriam chamar os torcedores organizados, mesmo os briguentos, para o seu lado

Se as partes passarem a se conhecer e a se respeitar mais, esses arruaceiros que ninguém quer mais no futebol vão desaparecer naturalmente

Robson Morelli

27 de abril de 2021 | 10h53

Se não podemos com eles, vamos nos juntar a eles e trazê-los para o nosso lado. Essa tática de guerrilha pode não estar tão fora de moda assim quando aplicada ao torcedores organizados, que vira e mexe atacam não mais os rivais, mas jogadores de sua própria instituição, como ocorreu nesta segunda-feira envolvendo uniformizados da Ponte Preta contra o ônibus do clube. Cerca de 20 torcedores briguentos e bandidos atiraram pedras no veículo e acabaram ferindo um jogador, o meia Vini Locatelli, que registrou boletim de ocorrência no 1º Distrito Policial de Campinas.

Foto: Estadão Conteúdo

Fui repórter a maior parte da minha carreira de jornalista, setorista de Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos, Portuguesa e ainda sou. Cobri muitas brigas de torcidas, reuniões da Polícia com lideres das organizadas, coletivas de promotores públicos e entrevistas de dirigentes das mais diversas correntes que passaram pelo futebol brasileiro nos últimos 30 anos. Nunca se pensou em trazer os torcedores para dentro do clube ou mais próximos dos jogadores. Nunca se teve essa necessidade porque também o mundo não queria participar tanto quanto agora.

Essa minha experiência me vez desacreditar nas instituições, que trataram de combater o problema tirando uma das torcidas dos estádios, a fim de justificar as brigas. Ocorre que isso não deu fim aos encontros agressivos. A polícia não tem como controlar. Marcam-se brigas longe dos estádios. Os presos num dia são soltos no outro, ou no mesmo até. Às vezes o agredido demora duas horas para fazer um boletim enquanto o agressor é liberado em menos tempo.

Pior. Nesse momento, no atual estágio de evolução dos torcedores de futebol, abaixo do cidadão comum, eles deram um tempo de brigar contra seus oponentes esportivos para atacar suas agremiações. Tem sido assim em todos os clubes, a mais recente na Ponte Preta. Mas teve no Corinthians no fim de semana e também no Palmeiras, quando os muros foram pichados.

Isso acontece porque há um distanciamento do clube e dos jogadores com os torcedores. Talvez uma reaproximação mude o cenários. Mais conversas, mais encontros, mais sorriso e mais diversão entre as partes pode mexer nesse relacionando, com regras, compromissos, diálogo, educação, respeito. O amor existe. Os próprios líderes e heads dessas torcidas vão acabar decretando paz entre as partes. Cobrar, reclamar, xingar por vezes quando o público for liberado nas arenas vai e deve continuar. É assim que se cobra no futebol. Mas quando se tem uma aproximação das partes, isso acaba tendo limites, mesmo para os torcedores de futebol.

Não defendo a doação de ingressos ou qualquer benefício de uns em detrimento de outros. Mas a torcida é sim uma parte representativa de um clube de futebol e deveria participar da vida do time, não para tomar decisões, isso jamais, mas para ajudar e apoiar de alguma maneira. Acredito que se essa aproximação fosse tentada, com o tempo, com as pessoas se conhecendo e sendo conhecidas, talvez esse exagero que estamos vendo acabasse, diminuísse…

Se continuar no confronto, na recusa, na briga, nenhum dos lados vai ter paz e o futebol vai ser o grande prejudicado, como já está sendo. Sabemos de jogadores que pedem para sair do clube por não aceitar cobranças físicas da torcida. Ariel Holan deixou o Santos por atraso nos salários, mas também por essa cobrança fora da métrica. Os dois lados deveriam tentar dar esse passo, sem intermediários, sem promotores, sem políticos querendo aproveitar nas urnas o seu resultado. Mas como sinal de amadurecimento das partes. Quem sabe não dá certo.

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