Copa América no Brasil expõe submissão de governos ao futebol, silêncio de atletas e falta de planejamento no combate à covid

Copa América no Brasil expõe submissão de governos ao futebol, silêncio de atletas e falta de planejamento no combate à covid

Também deixa claro por meio de uma paixão nacional, o futebol, que o País continua dividido diante de um problema que nos assola há mais de um ano, as mortes por causa da doença

Robson Morelli

31 de maio de 2021 | 18h23

Receber uma competição de futebol internacional no Brasil quando os números apontam para situações crescentes da doença no País, falta de controle nos Estados e campanha de vacinação realizada em pouco mais de 20% da população  para a primeira dose expõe a submissão e apego do presidente Jair Bolsonaro ao futebol, a falta de planejamento para o combate da covid-19 de uma nação, o silêncio medíocre dos jogadores sul-americanos, sobretudo das estrelas como Messi, Suárez e Neymar, e a forma ‘clandestina até’ que se tomam decisões importantes no Brasil. Junta-se a isso o racha declarado e a quase nenhuma união entre os Estados brasileiros que se permitem receber as partidas da Copa América e os que não querem ver a disputa em suas terras por causa do avanço da pandemia.

Foto: Alejandro Domínguez, Jair Bolsonaro e Rogério Caboclo / Divulgação Copa América

Esse Brasil foi a solução encontrada pela Conmebol para realizar o torneio de seleções da América, cujo campeão vai receber R$ 52 milhões. A CBF abriu as portas do País para a Copa América depois da concordância de Bolsonaro e do seu gabinete. Ninguém mais precisava então opinar. E assim foi feito até o anúncio oficial.

O futebol parou na Argentina, onde seria uma de suas sedes, porque os números da covid-19 aumentaram e bateram recordes nos últimos dias, perto de 35 mil contaminados, números proporcionalmente altos diante da população do país vizinho, que é de 45 milhões de habitantes. Então, o governo local deixou claro que não haveria atividade esportiva nos últimos dez dias. A Libertadores e a Sul-Americana receberam protocolos especiais para a realização de suas partidas, de modo que os times não ficassem nos países por mais de três dias e seguissem todas as regras de saúde exigidas. Mesmo assim, houve casos de contaminação, como a delegação do River Plate, que ficou com mais de 20 atletas com covid.

Para a Copa América isso não seria possível na Argentina. Então, sem a Colômbia, em convulsão popular, e com a Argentina vetada pela covid-19, a Conmebol se valeu do negacionismo do Brasil para trazer a competição para cá. O presidente da entidade, Alejandro Domínguez, não agradeceu ao povo brasileiro, mas sim ao presidente Jair Bolsonaro e ao colega Rogério Caboclo, da CBF. A Conmebol está alinhada com os métodos de segurança da pandemia no futebol usados pela CBF. Da mesma forma, a CBF tem o mesmo entendimento dos protocolos da Conmebol. Unha e carne. O projeto de a CBF se reaproximar da Conmebol está concretizado. O que isso significa, o futebol vai descobrir um dia.

Diferentemente da Argentina, o futebol no Brasil não parou. Jogamos a Libertadores, os Estaduais, a Sul-Americana, a Copa do Brasil e ainda acabamos de começar o Campeonato Brasileiro, em suas principais divisões. Adoramos futebol. Todos os estádios estão com portões fechados. Portanto, a Copa América terá de ser da mesma fora. Os jogadores das seleções terão ainda de aceitar as 50 mil doses de vacinas da Pfizer e Coronavac conseguidas pela Conmebol por meio do governo do Uruguai. A entidade vai imunizar jogadores e membros das comissões técnicas. Serão 65 pessoas por seleção.

Não se sabe ainda se o Brasil terá de se preparar para hospedar as 9 seleções, uma vez que a brasileira ficará na Granja Comary, em Teresópolis. Se os times optarem em ficar nos Estados brasileiros, CTs e hotéis e restaurantes e colaboradores terão de ser arranjados de forma a atender os anfitriões. Não houve planejamento para nada disso. E a competição está prevista para começar dia 13 de junho. O Brasil gosta de receber bem, como fez na Copa do Mundo de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016, mas com anos de preparação. A situação é diferente.

Nossos médicos estão há mais de 1 ano na luta contra a covid-19, cansados, e os hospitais voltam a ter ocupação de 80% em suas UTIs em algumas praças. Com mais visitantes estrangeiros, há o dever de ter mais cuidados e espaços de atendimento médico reservados. Há mais tensão. Há ainda a possibilidade de novas misturas do vírus com tantas pessoas de localidades diferentes. Portanto, há mais riscos. Riscos para jogadores e seus familiares, treinadores, colaboradores e para todos os envolvidos. O Brasil não precisava de mais esse problema para administrar.

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