Decisão da Fifa vai resgatar a tradição do futebol e sua aposta nas bases

Decisão da Fifa vai resgatar a tradição do futebol e sua aposta nas bases

Entidade presidida por Joseph Blatter acaba com os investidores e fundos de investimentos no futebol

Robson Morelli

26 Setembro 2014 | 16h07

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A Fifa atendeu pedido da Uefa e aprovou nesta sexta-feira o fim dos intermediários no futebol. Joseph Blatter não quer mais saber desse domínio dos investidores na contratação de jogadores e, consequentemente, no repasse para o clubes, como ocorre no futebol mundial, e sobretudo no Brasil, em que as parcerias, ou o nome que se dá a isso,  são o combustível para a sustentação dos times. O que a Fifa não quer mais é que empresas ou fundos de investidores ou investimentos sejam donos de contratos de atletas a fim de valorizar esse atleta para ganhar dinheiro.

A Fifa coloca a mão num vespeiro porque todos os clubes do mundo, de uma forma ou de outra, acabam se envolvendo e se beneficiando desse tipo de negócio, uns mais, outros menos, mas todos bebem desta água. Até alguns anos atrás, o Palmeiras tinha parceria com a Traffic, de J. Hawilla, que oferecia ao clube uma cesta de jogadores, feito ovos, para serem usados. Aqueles que se destacavam poderiam chamar a atenção de outros grandes, da Europa, por exemplo, e serem vendidos. O Palmeiras e a Traffic ganhavam. Mais a Traffic do que o Palmeiras. A Unimed talvez tenha jogadores no Fluminense. A DIS tem o contrato de alguns jogadores, não total, mas fatia de seus acordos econômicos. Entrega essas ‘galinhas dos ovos de ouro’ para as equipes na esperança de valorizar suas multas rescisórias, e com isso ganhar dinheiro.

Blatter e a Platini, da Uefa, imaginam que possam acabar com isso, de modo a não ter mais jogadores vinculados a empresas ou fundos. Pensam, isso deve ser comprovado com o tempo e novas informações, que devolverão os jogadores aos clubes, como era no passado antes da ‘intromissão’ desses parceiros do futebol. A mudança, já definida pela Fifa, entrará em vigor nos próximos três ou quatro anos, até para que os clubes tenham tempo de se preparar para isso. Elencos inteiros vão desaparecer.

Os investidores teriam de repassar esses contratos para os clubes, vender ou emprestar, de modo a serem os times os ‘patrões’. Time nenhum, diga-se, tem dinheiro para comprar todos esses atletas nas mãos de investidores, empresas e parceiras. Não ficou claro se a Fifa entende que um agente é um investidor. Isso terá de ser explicado. E duvido que esses investidores abrirão mão assim facilmente, numa canetada, de suas minas de dinheiro. Essa transição terá de ser muito bem costurada entre as partes envolvidas, e talvez três anos sejam insuficientes para regulamentar tamanha mudança.

De qualquer maneira, os clubes terão de se voltar para a formação de jogadores, como sempre foi no passado. Terão de ter regras mais seguras também para segurar seus meninos, de modo a não perdê-los sem usá-los ou lucrar com eles. E passarão a não alimentar mais o sonho de uma parceria milionária capaz de lhes oferecer títulos.  Com o tempo, acredito, os clubes voltarão a ser fortes.