Decisão da torcida única é equivocada e pode matar o futebol

Outros países já tentaram o procedimento e nada resolveram

Robson Morelli

07 de abril de 2016 | 11h14

A decisão de fechar os portões para uma torcida nos clássicos de São Paulo até o fim do ano se mostra rasa e de pouca valia para coibir a violência entre os uniformizados. Trata-se de uma determinação punitiva ao torcedor de bem, às famílias, crianças e mulheres que haviam voltado aos estádios. Dá de ombros para a importância dos visitantes, como se o futebol não fosse o encontro de duas equipes, duas bandeiras, duas paixões. Matará a modalidade, se não de imediato ao longo do tempo. Na prática, provoca a transferência do ódio, que agora recai sobre os ombros dos jogadores rivais e da arbitragem, ou de quem quer que se meta no caminho dos mandantes. Não haverá oponentes nas arquibancadas, lembre-se.

Tirar o visitante das partidas já foi testado em outros lugares, como em Minas Gerais. Na Argentina, a prática é adotada faz algum tempo, sem resultado eficaz. As brigas em São Paulo ocorrem bem longe dos estádios, em estações de metrô, pontos de ônibus ou nos rincões da cidade. Por vezes são pre-agendadas, mas também acontecem por acaso, quando uma facção encontra outra pelo caminho. Brigam por brigar, pelo simples fato de ver na minoria as cores do time rival, muitas vezes nem se lembrando do resultado da partida que acabaram de ver.

Na Inglaterra, a decisão tomada foi inflacionar o preço dos ingressos de modo a ‘banir’ dos estádios os menos favorecidos, entendendo que os que brigam são os mais pobres e sem dinheiro. Também há grupos menores de ‘organizados’ no país europeu. Mas lá os organizadores não demoraram para entender que o visitante é tão importante quanto o mandante. É a torcida rival que canta e provoca a mesma reação dos donos da casa, muitas vezes em silêncio quando o futebol não empolga. A Liga Inglesa tanto valoriza a importância de estádios divididos que já aprovou para as próximas temporadas um teto no valor das entradas, perto de 30 libras, que deve dar cerca de R$ 200 – metade do que vem sendo praticado. Tudo para que o viajante participe do espetáculo. No Brasil, caminhamos na contramão.

A decisão da secretária de segurança pública foi tomada em reunião com outros representantes do futebol, como FPF e Ministério Público. Os clubes e a CBF não se mostraram representadas no encontro e praticam um silêncio comum aos que nada farão para ajudar. Também ficou estipulado que os cartolas não poderão repassar entradas para as organizadas, prática comum, mas não se sabe se isso acontecerá efetivamente. Do promotor Paulo Castilho partiu a ideia do fim das Uniformizadas, da prisão dos envolvidos, do uso de tornozeleiras. Bem ou mal, Castilho foca uma resolução no problema, nas torcidas, e não em suas periferias, como se propõe agora.

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