Difícil defender “os privilégios” de Neymar na seleção ou de qualquer atleta de esporte coletivo

Com muita boa vontade, o atacante do PSG deve ter confundido regalia com necessidade ou qualquer outra coisa desse tipo

Robson Morelli

10 de outubro de 2019 | 09h49

Regalias… Com muita boa vontade da minha parte, posso entender que Neymar confundiu privilégio com necessidade ou algo parecido que pudesse se encaixar em regalias dadas a um único jogador dentro do futebol, ou de qualquer outro esporte coletivo.

Uma historinha… Na Copa do Mundo de 2002, Ronaldo chegou machucado à Coreia e Japão, mas Felipão sempre achou que ele pudesse ser útil ao time nas sete partidas do torneio. Já era Ronaldo Fenômeno, com toda sua história na Europa, sobretudo. Portanto, um jogador acima da média e já reconhecido. Ronaldo tinha privilégios em relação ao grupo, mas não esse privilégio ao qual Neymar tem e acha que deveria continuar tendo, como Messi, citado por ele, no Barcelona. Naquele Copa, a última que ganhamos, Ronaldo treinou demais, trabalhava em dois períodos sem reclamar. Treinava separado dos companheiros.

Dois gols na final… Esse tipo de privilégio é perfeitamente aceitável no futebol. No fim, Ronaldo, recuperado, fez dois gols na decisão contra a Alemanha e o Brasil foi pentacampeão.

Por causa dos joelhos… Zico, devido a tantas pancadas que teve nos joelhos (era a única forma de pará-lo), também teve privilégios no Flamengo. Havia um cuidado especial com ele por causa da sua condição clínica e física até. Não era um privilégio que o colocava acima dos demais, com mais direitos e menos obrigações, como entende Neymar por ele ser um dos melhores jogadores do mundo. Zico e Ronaldo nunca pediram para ser tratados diferentemente dos outros, com mais regalias. E se pediram, não foi em público.

Neymar desmascara Tite… Neymar também desmascarou Tite com sua declaração. O técnico jamais admitiu privilégios ao atacante. Momentos antes da entrevista de Neymar nesta quarta-feira, lá em Cingapura, o treinador confirmou que não se daria a esse papel no cargo. Talvez Tite, também com muita boa vontade minha, entenda privilégios de uma outra forma. Ele jura que não está na seleção para passar a mão na cabeça de ninguém.

Como explicar isso… Não passa pela minha cabeça que Neymar defenda privilégios. Essa atitude, ele passa por cima da comissão técnica. Pior, dos companheiros do time. Ora, por que os outros jogadores têm de aceitar regalias ao jogador do Paris Saint-Germain? Somos ou não somos todos iguais quando estamos num grupo em que o objetivo é o mesmo, em que todos remam para a mesma direção? Como explicar isso para nossos filhos, que as pessoas são iguais e que não deve haver privilégio entre iguais?

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Pelé… O pior de tudo é saber que Neymar pensa desta maneira. Pelé, o melhor de todos, não tinha privilégios quando chegou à seleção, até porque era um garoto de 17 anos. Depois, quando foi corado, continuou fazendo tudo o que os outros da equipe faziam. Sim, era o “presidente” a quem todos recorriam quando a coisa apertava, porque era Pelé, e tinha uma voz mais pesada na grupo, como Neymar deve ter diante desses meninos da seleção atual, mas nem por isso Pelé tinha privilégios ou deixava de fazer o que os colegas faziam ou se vestia e se sentia de forma diferente dos outros por ser quem era.

Futebol não é assim… Privilégio pode até existir vez ou outra, afinal, ninguém é de ferro, e andar na linha o tempo todo não é fácil. Mas ele pode ser mais democrático também, espalhado entre todos do elenco, ora um, ora outro, e não direcionado somente a um “especial” do grupo. Até porque todos na seleção são bons jogadores em seus respectivos times. Então, todos poderiam reivindicar direitos especiais. E o futebol não é assim. Ou não deveria ser.

 

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