Diniz não virou o melhor técnico do mundo nem o São Paulo é melhor que o Bayern, mas tudo mudou

É inegável que o time melhorou, que as peças se encaixaram como nunca antes e que o treinador evoluiu após mais de um ano no cargo, mas isso não apaga o que passou, como as eliminações precoces na temporada

Robson Morelli

04 de dezembro de 2020 | 17h19

A liderança do São Paulo no Campeonato Brasileiro não apaga os fracassos do time na temporada, com eliminações precoces e diante de rivais teoricamente inferiores no Paulistão, Libertadores e Sul-Americana. O time foi mal nessas competições e deixou a desejar, mas sempre esteve bem posicionado no Nacional, entre os primeiros colocados até assumir a ponta após 22 jogos, um a menos do que o segundo colocado, o Atlético-MG.

Não há, no entanto, como mudar o que passou e elenco, comissão técnica e diretoria vão sempre ser responsabilizados pelo que não deu certo. Os jogadores corriam errado e os principais atletas não estavam bem, como Daniel Alves e Reinaldo. Fernando Diniz não deu conta de arrumar a defesa nem fazer a equipe jogar a contento. Seu trabalho foi ruim. A diretoria demorou para aparecer em público, como Raí fez, para dizer que Diniz ficaria no comando até o fim. Quando disse, poucos acreditaram porque o futebol é um mundo sem crédito. O que se fala não se escreve. Tudo isso é fato. Assim era o São Paulo e foi nas competições que ficaram pelo caminho.

Há ainda um outro personagem nesse enredo, a torcida, que fez protestos, fechou avenida e reclamou de jogadores, treinador e diretoria. Queria todos numa bandeja. Na paixão de suas manifestações, ninguém prestava no Morumbi. Esse cenário tomou conta do clube até dois meses atrás. O torcedor era o menos confiante, nem mesmo o mais otimista acreditava. Para piorar, o presidente pegou covid-19 e ficou internado. Fora de combate. Felizmente ele se recuperou e está de volta para passar o bastão na eleição do dia 12.

O São Paulo evoluiu apenas com trabalho. É preciso reconhecer isso, é fato. E melhorou sem mudar peças, o que é mais estranho ainda no futebol. Escolheu, como disse Raí, um caminho diferente do comum, que seria a demissão do treinador. É verdade que ele esteve perto de perder o empregos, mas nunca ficou evidente que não tivesse o grupo nas mãos. Fechado com o elenco, pediu para que todos dessem um pouco mais. Acertou posições, conversou com todos, foi ganhando o time na lábia.

Também contou com a recuperação de jogadores que estavam em baixa, como Daniel Alves e Reinaldo. Na vitória contra o Goiás, até Hernanes fez gol. Brenner e Luciano combinaram bem, feito café com leito, e desembestaram a fazer gols, sem vaidade, sem pensar individualmente. O São Paulo soube aprender com os erros e as lambadas.

Precisava passar por isso? Talvez tivesse um caminho mais curto, mas Diniz não o encontrou. A defesa acertou, o goleiro ganhou confiança e parou de errar, os volantes passaram a marcar mais e até Tchê Tchê tomou um choque e parou com tantos toques para trás. A meninada deu conta do recado e assumiu o time em prol do próprio time e da manutenção de Diniz.

Talvez seja esse o caminho natural de crescimento de uma equipe. É preciso pagar pedágios, ter paciência, apostar em ideias e defender convicções. O São Paulo passou por tudo isso e essa é a maior lição que fica. Ganhar ou perder os torneios agora é consequência. Diniz não virou o melhor treinador do mundo nem o São Paulo é melhor do que o Bayern de Munique. Tampouco é possível apagar o que se passou na temporada. É preciso olhar para frente, continuar evoluindo, manter o que funciona e melhorar o que não está dando certo. Ninguém só perde e ninguém só ganha.

Muitas respostas ainda precisam ser dadas. Diniz vai ficar em 2021? Haverá reformulação no elenco para recomeçar do zero de novo? Como bancar os salários mais altos do grupo? A nova presidência vai continuar com a atual diretoria de futebol? Algumas dessas decisões estavam ‘prontas’, mas tudo mudou. Ninguém é mais o mesmo no São Paulo.

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