É, no mínimo, irresponsável o pedido do presidente Bolsonaro de clamar pela volta da torcida aos estádios de futebol

Declaração em live vai na contramão das mais de mil mortes por dia por causa da covid, nesta quinta foi de 1.439; pedido atropela apelo de médicos e especialistas da saúde, ignora a ciência e constrói uma narrativa digna de Alice no País das Maravilhas

Robson Morelli

29 de janeiro de 2021 | 09h06

Já bastante claro para todos, menos para o presidente e seus pares que não se cansam de aplaudi-lo, que não é hora de o torcedor voltar para os estádios. Quem diz isso com todas as letras não é a imprensa, mas os especialistas na linha de frente do combate à pandemia. Eles estão nessa há um ano. Sim, existe uma doença no mundo matando pessoas. Não parece difícil entender isso. Se não conseguir, é só ver com os próprios olhos nos hospitais e cemitérios.

Há dois tipos de brasileiros no País nesse momento, os que acreditam na ciência e temem a doença e os que não acreditam nem temem a covid-19. O presidente Jair Bolsonaro é do segundo time. Sempre foi. Nesta quinta-feira, em live, ele clamou pela volta da torcida aos estádios. Ora, faz o apelo na semana em que o Corinthians, por exemplo, teve 16 casos de contaminação e depois constatou falso positivo nos exames. Pior, quando infectologistas apontaram que levar 5 mil convidados para o Maracanã para a final da Libertadores entre Santos e Palmeiras é arriscado. Pior ainda: quando os números de mortos e contaminados explodem, batendo nesta quinta na conta de 1.439 óbitos.

Mas o presidente pede a volta das aglomerações. Não sei se ele já esteve em um estádio nas numeradas ou arquibancadas, político que sempre foi. Nesses setores, as pessoas ficam próximas umas das outras, se abraçam, falam, gritam. Em muitas vezes, em momentos de emoção, têm atitudes fora dos protocolos. Todos entram nas arenas ao mesmo tempo, faltando minutos para começar a partida porque ficam bebendo fora delas. A saída é mais conturbada ainda. Todos deixam o local como gado confinado, se esbarrando uns nos outros, falando, comemorando, lamentando o resultado. Comem e bebem. Imagine 20 mil pessoas saindo ao mesmo tempo em portões acanhados para a quantidade de gente e num prazo de 30 minutos.

Mais aglomeração do que isso, não conheço. Há garotos, jovens, homens e mulheres de meia idade, adolescentes em turma, senhores mais velhos com suas famílias. A chance de se contaminar, portanto, é gigantesca. E aí as pessoas entram numa roleta russa. Não se sabe como a doença vai se comportar no organismo de cada um, alguns sentem mais, outros não sentem nada. Felizmente, a maioria se salva. Mas muitos morrem – o presidente não está preocupado com esses. Quer que as pessoas voltem a sorrir, a se divertir, a ter suas vidas como antes. Mas como, presidente, se a doença está aí, com poucas vacinas no Brasil e muita desorganização e morosidade em sua distribuição?

O pedido é, no mínimo, irresponsável, mesmo para aqueles que amam o futebol, como boa parte dos brasileiros. Trata-se de uma visão fora da realidade. Manaus está em colapso. São Paulo tem seus hospitais cheios, assim como a maioria dos Estados brasileiros. Não é hora de pancadão. Não é hora de viajar. Não é hora de festejar. Não é hora de voltar aos estádios também. Queremos muitos recuperar nossas vidas, mas não é agora, presidente.

Na CBF, antes desse comentário, não havia qualquer iniciativa nesse sentido, de liberar torcida no futebol. Tampouco nas federações estaduais, que vão comandar o futebol a partir de março, com o Regionais. Com seu discurso, o presidente constrói uma narrativa digna de Alice no país das maravilhas.

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