É preciso olhar para Sampaoli de duas formas: um treinador obcecado e um profissional sem parada

É preciso olhar para Sampaoli de duas formas: um treinador obcecado e um profissional sem parada

Treinador argentino espera oferta do Olympique de Marselha para anunciar se fica em Minas ou se sai do Atlético

Robson Morelli

18 de fevereiro de 2021 | 10h40

As notícias que vêm de Minas Gerais dão conta de que o treinador Jorge Sampaoli está novamente de malas prontas. O técnico do Atlético pode deixar o clube e atravessar o Atlântico, com destino a Marselha, para comandar o Olympique. Ele está no fim do seu contrato com o clube brasileiro, que tinha e ainda tem a expectativa de mantê-lo dado o planejamento feito para esta e para a próxima temporada. Nas entrelinhas, no entanto, Sampaoli vai se despedindo em suas entrevistas.

Foto: Divulgação Atlético-MG 

É preciso olhar para o treinador argentino de duas maneiras. A primeira, mais visível, é que ele é um comandante obcecado por vitórias, conquistas e boas apresentações. Entenda-se jogar para frente a qualquer custo. Sampaoli não é de cozinhar o galo, fazer partidas em banho-maria e ter o regulamento debaixo do braço. Mas é também um profissional sem parada, agitado na vida como é à beira do gramado. Pulsa em suas veias o rock in roll tatuado na pele.

Sua agitação é permanente, embora sempre diga estar vivendo bem nos clubes em que trabalha. Foi assim em Santos e tem sido assim em Belo Horizonte, cidades diferentes que entraram na vida desse treinador estrangeiro. Sampaoli é um agitador nato. Não tem paz nem oferece paz a ninguém ao seu redor. Seus pedidos de reforços são sempre para ontem. As listas têm apenas um critério: talento. Ele não está nem aí para valores ou contratos vigentes. Pede é aguarda. Tem sido assim no Atlético-MG. Foi assim no Santos. O clube mineiro contratou Hulk e nem isso o animou.

Quando cisma com algum jogador, coitado dele. Tem sido assim com Tardelli. Para muitos, o atacante poderia ter jogado mais. Dinheiro parece não segurá-lo. Ele pode usar sua premiação no Brasileirão, dada pelo clube pela vaga na Libertadores, para pagar sua rescisão, algo perto dos US$ 800 mil.

No Santos foi a mesma coisa. Feito gafanhoto, ele assume o time, faz o trabalho e se manda. É da sua personalidade não fincar raízes. Ele ainda vive de um bom trabalho realizado na seleção do Chile e de ter sido ignorado na equipe argentina, onde nunca foi bem aceito pelo elenco liderado por Messi e Di María. No Santos, seu trabalho foi reverenciado a ponto de ter o nome assoprado em vários clubes de tradição, como Palmeiras e Flamengo, por exemplo.

Mas ele também é enrolado para negociar feito um astro da música. No Atlético, chegou para substituir outro estrangeiro, Dudamel, que não deu muito certo em Minas, mas que também não teve muito tempo.

Ser intransigente parece uma marca característica de Sampaoli. Tem gente que gosta. Tem gente que não gosta. Ele não é mais unanimidade no futebol brasileiro. Continua entre os melhores da profissão, mas cada vez mais com ressalvas. Esperava-se mais dele com esse Atlético. Ele atormenta a atual diretoria do clube mineiro e seus patrocinadores com pedidos e mais pedidos. Pede para o time e não para ele próprio. Pede por entender que dessa maneira seu trabalho poderá ser mais fácil e o time terá mais chances de se dar bem. Foi assim na Cidade do Galo da sua chegada à última partida do time no Brasileirão.

Ganhou o Campeonato Mineiro, pouco para as pretensões do clube e para as apostas feitas no nome do seu treinador. Não fracassou porque o Atlético está entre os melhores do Nacional, mas com o Santos, em 2019, fez a segunda melhor campanha, atrás apenas do Flamengo.

É preciso, portanto, entender o ‘pacote Sampaoli’. Quem o contrata, além do custos de sua comissão, precisar saber dos prós e contras, tem de conhecer sua personalidade irrequieta. Não seria demais supor que em nenhum momento do seu trabalho no Santos e no Atlético, os dirigentes dos dois clubes tiveram momentos tranquilos em relação ao seu treinador. Sampaoli é uma onda gigante num mar agitado, que quebra na praia e se forma novamente, sem cessar –  mesmo que não tenha praia em Minas.

Sua permanência no Atlético não depende de nada, assim como sua saída. Tudo está dentro de sua cabeça. Se tiver oferta do clube de Marselha e entender que deve atravessar o Atlântico, ele vai. Sem olhar para trás. Assim é Jorge Sampaoli.

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