É preciso prestar atenção nas ideias de Fernando Diniz, técnico do Audax

Mas fica a pergunta: que presidente de clube grande teria coragem de bancar um Fernando Diniz e que torcida de time grande suportaria seu estilo sem pedir sua cabeça depois de três derrapadas? Talvez Fernando Diniz esteja muito à frente do futebol brasileiro.

Robson Morelli

23 de abril de 2016 | 21h31

Sim, se o Audax tivesse ficado pelo caminho no Campeonato Paulista, o trabalho do técnico Fernando Diniz seria enterrado como o da maioria dos técnicos brasileiros. Ocorre que o time do ‘é proibido dar chutão’ está na final do Estadual depois de eliminar ninguém menos do que o Corinthians na semifinal dentro de sua casa, diante de 42 mil pessoas, a maioria corintiana. Antes disso, havia feito o mesmo contra o São Paulo, outro gigante do Estadual. Então, não é por acaso que o Audax comemora façanha inédita em sua história. É zebra, mas é uma zebra que sabe o que faz dentro de campo.

Para chegar à final do Paulistão, Fernando Diniz fez o que sempre faz em suas conversas com os jogadores. Pediu para o time jogar, tocar a bola, manter a calma, arriscar e não desistir de preencher o espaço nos dois campos, como jogou sua equipe durante toda a competição. O que isso significa todos sabem. O Audax correria perigo na frente dos rivais corintianos, como aconteceu em boa parte da disputa. Mas em nenhum momento, os jogadores do Audax desistiram das ideias do treinador. O time esteve três vezes na frente do marcador, 1 a 0, 2 a 1 e novamente 2 a 1 nas cobranças de pênaltis. E olha que o Corinthians também fez boa partida, buscou o resultado, teve chance de virar até a decisão pelos tiros livres.

Os méritos do ‘é proibido dar chutão’ é de Fernando Diniz, mas não só dele. É preciso ressaltar o interesse dos jogadores em aprender e defender esse estilo de jogo, do goleiro ao último reserva. De não ter apelado quando as coisas não davam certo. Também é preciso ressaltar a coragem dos que mandam no clube, como o presidente Vampeta, que nunca atuou desta maneira quando era jogador, nem na seleção, mas que aceitou a proposta, por mais maluca que ela fosse. Diniz garante que em seu trabalho é sim permitido dar chutão, mas ele prefere o toque de bola de pé em pé, mesmo se para isso o time tiver de correr riscos. Defende o jogo coletivo e tudo o que isso significa. O fato é que suas ideias, que já chamavam a atenção, agora começam a dar resultados. Já entrevistei o jogador Fernando Diniz, e o que me lembro dele desta época é que suas declarações e observações sempre eram mais profundas e diferentes. Uma vez me pediu para dar um voto de confiança ao seu trabalho porque ele sabia jogar. Dei. É isso o que ele faz com seus jogadores, acredita neles, cobra, corrige, mas não desiste do trabalho de orientá-los e resgatá-los. Fernando Diniz já teve treinador que desistiu dele. Não fará o mesmo. Por isso também o Audax dá certo.

De prático, o Audax fez uma fase de grupos objetiva e levou a melhor nas duas decisões em jogo único, contra São Paulo e Corinthians, a primeira na condição de mandante e a segunda como visitante. Indigesto, diga-se. Muitos torcedores, jornalistas e corneteiros comentam sobre a possibilidade de o estilo ‘é proibido dar chutão’ de Diniz encampar algum time grande, onde os elencos são mais bem preparados e de jogadores com mais técnica, teoricamente. Penso que o estilo ‘é proibido das chutão’ deveria se espalhar pelo futebol brasileiro. No mínimo, depois de algumas temporadas, nossos jogadores seriam mais técnicos e preparados, sem medo de errar. Vale ressaltar que o toque de bola de uma equipe não está nos passes certos, mas na movimentação constante dos jogadores. Não existe tiki-taka sem deslocamento na defesa, no meio e no ataque.

Mas fica a pergunta: que presidente de clube grande teria coragem de bancar um Fernando Diniz e que torcida de time grande suportaria seu estilo sem pedir sua cabeça depois de três derrapadas? Talvez Fernando Diniz esteja muito à frente do futebol brasileiro.

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