Enquanto Tóquio veta público na Olimpíada, Rio abre as portas para torcedores na Copa América

Enquanto Tóquio veta público na Olimpíada, Rio abre as portas para torcedores na Copa América

Postura diferente em meio à pandemia ainda alta em países que recebem eventos esportivos

Robson Morelli

09 de julho de 2021 | 10h30

No dia 8 de julho, morreram 3 pessoas em Tóquio por causa da covid-19. No mesmo dia, 177 cariocas perderam a vida para a doença. O país-sede dos Jogos Olímpicos registra média de 800 casos de covid-19 por dia. No Brasil, esse número, em queda, está em torno de 53 mil. Por dia também. Na capital japonesa a vida parece ter mais valor porque a cidade entrou em estado de emergência e proibiu a presença de público nas arenas esportivas dos Jogos Olímpicos. Medida de cautela. A vacinação das duas doses está igual, tanto lá quanto cá, na casa dos 15%.

Foto: Wilton Junior/Estadão

Ocorre que nesta sexta-feira, a prefeitura do Rio aceitou liberar 10% da capacidade do Maracanã para o público na final da Copa América, entre Brasil e Argentina, sábado, ás 21h. Todos os jogos da competição que o Pais não queria foram de portões fechados. Houve contaminação de jogadores, membros da comissão técnica e colaboradores durante a disputa, Ninguém morreu ao que se sabe. Quando o governo do presidente Jair Bolsonaro avisou aos brasileiros que a Copa América seria no Brasil, disse também que ela teria torcedor, mesmo na final.

Mas a Conmebol e o governo não vão cumprir o que falaram. Cerca de 6.500 pessoas estarão no estádio, segundo o prefeito do Rio, Eduardo Paes, em locais diferentes do Maracanã, diferentemente do que ocorreu na decisão da Libertadores entre Palmeiras e Santos.

“Serão 10% em vários setores do estádio, com espaçamento grande entre as pessoas. Serão convidados da Conmebol. A decisão também é da secretaria de saúde da cidade. Servirá como um evento-teste para o período de transição que estamos vivendo”, disse Paes.

O tal “período de transição” a que Paes se refere ainda não aconteceu. O Brasil vive nova preocupação com a cepa do vírus da covid-19, a Delta Indiana, que já está circulando no País. Acompanhamos com muita esperança a queda dos números em todos os sentidos, de morte à contaminação, passando pelos leitos de UTI dos hospitais. Mas ainda aguardamos. Não podemos festejar gol antes de a bola entrar, nem comemorar vitória até que o juiz não apite o fim da disputa. E a grande verdade é que perdemos esse jogo, com 530 mil óbitos.

Daí minha conclusão que a vida no Japão vale muito mais do que a vida no Brasil. Os convidados serão testados e tudo mais. Mesmo assim, é risco. Pior. Mais uma vez vai passar a imagem de que o Brasil está vencendo a doença. Ainda não está. A vacinação avança, mas ainda longe de ser ideal. Há uma CPI para investigar por que o governo não comprou as vacinas e demorou tanto para acreditar no perigo da pandemia. Mesmo nos jogos da Eurocopa, com torcedores em todos os estádios, o que se viu foi uma nova onda de contaminação nesse vai e vem de torcida em locais e transportes públicos. É cedo para abrir os portões tanto para a Copa América quando para o futebol brasileiro.

É questão de acreditar ou não na doença. É questão de ter um familiar ou amigo morte durante a pandemia. É questão de esperar um pouco mais para poder sair de casa com mais segurança. Todos nós queremos voltar aos estádios, mas ainda é cedo. Em relação à Conmebol e às tratativas feitas com CBF e governo de Jair Bolsonaro, só há a lamentar a falsidade e mentira, sem falar de mudar o combinado. Mas, confesso, não é nenhuma surpresa.

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