Está na hora de o futebol brasileiro abrir mão de técnicos ‘brucutus’

Os clubes precisam apostar em 'professores' mais inteligentes e escapar dessa ciranda viciada de comandantes demitidos aqui e contratados ali

Robson Morelli

09 de dezembro de 2014 | 11h18

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A dança das cadeiras dos técnicos nos times brasileiros já começou. Um treinador que não serviu para determinado time nesta temporada, acaba acertando contrato com outro, e é apontado como a grande contratação do próximo ano. É sempre assim. Dessa forma, cria-se uma situação viciada e andando em círculo. Todo mundo sabe que alguns treinadores estão desgastados, isso sem mencionar o fato de os técnicos exigirem cada vez mais em seus vencimentos. Salário gordo.

Sempre defendi que treinador de futebol tem 20% dos méritos de uma equipe. O problema é que há anos o ‘professor’ se tornou mais valorizado do que o jogador, que faz o espetáculo e ganha partidas. Isso tem a ver também com a pouca e cada vez menos personalidade dos atletas, com sua técnica e confiança. Poucos dão a cara à tapa, carregam equipes e se transformam em líderes natos. Não sou saudosista, mas é inegável que no passado esses profissionais eram maioria. Hoje, além do nível técnico ser mais baixo, os garotos já surgem ganhando bem, e isso, de alguma forma, faz com que ele corra menos e se ‘ache’ mais importante do que ainda é para a equipe.

Os dirigentes precisam se preocupar mais em encontrar jogadores bons de bola. É inadmissível que nesse ‘Brasilzão’ não tenha moleque que possa se transformar em grandes jogadores. Poucos times fazem esse trabalho de garimpagem como deveria. Poucos times têm olheiros competentes. Geralmente os departamento de base são entregues a agentes, que tomam dinheiro do clube em troca de atletas medianos, alguns empacotados como moeda de troca.

A crise dos treinadores é tamanha que há, só em São Paulo, dois gigantes sem comandantes. Corinthians e Palmeiras demitiram seus treinadores. Mano e Dorival estão desempregados e devem aparecer em outros times em 2015. Não são treinadores ruins, mas não conseguiram fazer bons trabalhos. Mano Menezes é mais experiente, mas parece que não consegue ser querido nos clubes em que passa. Dorival perdeu o emprego pela condição do Palmeiras, ruim do começo ao fim da temporada. Não é o único culpado pelo fracasso do time. Mas últimas partidas condenaram sua permanência.

É preciso descobrir treinadores inteligentes, com ideias boas, que valorizem qualidade, que assumam um grupo sem o temor do fracasso. O treinador brasileiro precisa ter um pouco mais de tranquilidade para exercer sua função, além, claro, de tempo. Não se pode contratar um treinador agora para ele ganhar o Paulistão. Isso não existe em times desfigurados, por exemplo, como é o Palmeiras. Se ganhar, ótimo. Mas não deve existir cobrança fora da realidade.

Entendo que alguns treinadores deveriam ter mais chances em 2015. Penso, sobretudo, em Paulo Roberto Falcão, técnico que poderia dar uma cara nova ao Palmeiras. Por que não? Outro peso à beira do gramado, certamente ele daria. Marcelo Oliveira, do Cruzeiro, não tinha a mesma reverência em temporadas atrás. Precisou encontrar times que apostassem em suas ideias (Coritiba e Cruzeiro) e agora é o melhor treinador do Brasil. É assim que funciona. Os cartolas precisam gerir sem ter de apagar incêndios a todo instante.

Há outros que podem ser valorizados. Mancini é um deles. Embora o trabalho no Botafogo não tenha sido positivo (o time foi rebaixado), sua personalidade é diferente de muitos que estão por aí, ganhando salários gordos. Sempre fui da opinião que treinador que foi bom jogador tem  mais chance de formar um bom time. Nem sempre é assim, sabe-se. Mas se o cara jogou bem, certamente ele foi bem treinado e tem gosto pelo bom futebol. Chega de treinadores ‘brucutus’, aqueles que só pensam no jogo seguinte, que vivem de vitórias e não conseguem dar padrão a um grupo de jogadores. Chega de treinadores que não conseguem ensinar o básico, aperfeiçoar os fundamentos, tirar de um atleta o que ele tem de melhor. Há muitos que se escondem atrás de jogadores ruins para abafar suas próprias deficiências.

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