Faz 20 anos que uma briga campal no Pacaembu mudou a forma de ver futebol

Desde a morte de Marcio Gasparin, o medo sempre rondou os estádios, e pouco foi feito para conter os torcedores organizados

Robson Morelli

20 de agosto de 2015 | 08h29

A morte de Marcio Gasparin naquele 20 de agosto de 1994 entrou para a história (negativa) do futebol brasileiro. Fosse hoje, o mundo também ficaria estarrecido com a velocidade da notícia. A briga entre torcedores estaria em todos os lugares. As cenas, mostradas ao vivo pela TV numa partida entre Palmeiras e São Paulo pela Supercopa de Juniores, portanto, de garotos que ainda não eram profissionais, chocaram pela brutalidade. O Pacaembu estava em reforma, cheio de entulho, paus e pedras dentro do campo, encostado num cantinho. Ninguém imaginou que aquilo pudesse se transformar em arma.

Após a vitória do Palmeiras, as torcidas, que já se provocavam, entraram em confronto dentro do gramado após invasão dos dois lados. Socos e pauladas eram mostrados ao vivo, até um deles acertar Gasparin, que morava em Perus. O rapaz cambaleou, caiu e, depois de oito dias, morreu. Provavelmente não foi a primeira vítima das rixas entre torcidas organizadas, mas certamente foi a que mais marcou, e que abriu um rastro de destruição entre facções inimigas no futebol nesses últimos 20 anos. Eu mesmo cobri aquele episódio, conversei com a mãe de Marcio e também com o torcedor apontado como responsável, o palmeirense Adalberto Benedito dos Santos, que pegou 14 anos de prisão. Mas nunca consegui entender o que motivou a violência.

Marcio Gasparin puxou a fila dos torcedores que morreram pelo futebol nessas últimas duas décadas. Outros vieram. Os torcedores descobriram que podiam se organizar e se organizaram, formando verdadeiras gangues. Entraram na mira da Polícia e do Ministério Público. Mais gente morreu. Muitos foram presos. Ninguém conseguiu ainda desmontar as Uniformizadas, que viraram ‘empresas’ e cresceram com líderes e ‘soldados’. Torcem e brigam. É o que fazem nos estádios e pelas ruas que passam. Pregam o ódio aos rivais (torcedores de outros times) acima de tudo. São valentes em grupo, e chorões quando presos individualmente. Matam e morrem com a mesma frieza, sem sentimentos. Foi assim naquela briga campal do Pacaembu.

Muito se discutiu e quase nada foi mudado efetivamente. Não se sabe quem são esses torcedores. Entraram no samba e até ajudam entidades carentes. Mas continuam matando. As instituições empurram a ‘sujeira’ para o quintal do vizinho. Ninguém se responsabiliza. O que dizem é que a polícia prende e o judiciário solta. As leis dão brechas. Há períodos de calmaria para logo em seguida estourar alguma confusão grande, retomando a discussão na mídia. Tem sido assim nos último 20 anos. Pais mais responsáveis e que têm o controle dos filhos, não permitem que eles vão aos estádios com camisas de clubes. As brigas também saíram dos estádios, bem policiados, para ganhar a cidade, estações de metrô, ônibus, ruas. Esses bandos já chegaram a marcar local e hora das brigas, feito duelos quanto o mundo resolvia os problemas na bala. Faroeste.

A maioria do cidadão comum pede o fim das torcidas organizadas. Colocando na balança a festa que fazem nos estádios e o rastro de destruição que deixam aonde quer que vão, muitos preferem seu desaparecimento. Nas novas arenas, elas ficam confinadas em locais isolados. Há clubes, como Inter e Grêmio, que abriram espaços para torcedores rivais num mesmo setor, lado a lado, como era no passado. Isso está voltando. A ideia é acabar com os briguentos. Alguns cartolas também romperam com essa gente depois de alimentá-los por anos. E assim vai se tentando fechar o cerco contra os torcedores organizados, a maior praga do futebol brasileiros desde aquela briga no Pacaembu.

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