Futebol brasileiro deveria pagar jogadores por produção e parar de contratar às cegas

Desesperados para formar times melhores e dar respostas às cobranças externas, clubes do Brasil só fazem contratar sem qualquer critério e depois são obrigados a pagar alto quem produz pouco

Robson Morelli

27 de janeiro de 2021 | 07h00

Teve um tempo em que nossos dirigentes contratavam jogadores por DVD. Isso marcou época nas décadas de 1990 e 200o. Os agentes só editavam as boas jogadas, claro. E como impressionavam! Já tive um desses DVD em mãos. Só lances e gols bonitos. O DVD ficou pelo caminho com a modernidade. Mas o cenário piorou.

Os presidentes assinam os contracheques hoje sem DVD, sem imagens, sem muita referência, quase sem nada a não ser o histórico do referido atleta. O caso de Luan, no Corinthians, é emblemático. Não joga desde que chegou. Não corre. Parece não ter vontade. Foi comprado por R$ 22 milhões. A propósito, tudo no futebol é em milhões de reais.

Quem comprou Luan? Andrés Sanchez, certamente orientado por dirigentes do futebol ou por suas próprias ideias. Sem contar o salário mensal, para mais de R$ 500 mil, o meia ou atacante (não se sabe sua posição ao certo) só deu prejuízo. Daí a necessidade de o futebol pensar com mais carinho o pagamento por produção. Melhor seria se tivesse teto salarial ou se os cartolas não fizessem tantas loucuras. Pato, no São Paulo, foi outro jogador que não valeu a compra. Há muitos outros.

Essa discussão foi feita tempos atrás com o meia Valdivia, do Palmeiras. Outros clubes também fizeram. Como o chileno não jogava muitas vezes, foi ventilada a possibilidade de receber apenas cada vez que entrasse em campo e nada mais. Mas os valores pedidos eram altíssimos e Valdivia poderia fazer o salário do mês jogando menos que os companheiros. Não seria certo. Nem justo. A ideia fracassou.

Jogadores diferenciados poderiam exigir mais. Jogadores comuns, não. O futebol brasileiro está cheio de jogadores comuns. Nesta semana, o Atlético-MG anunciou ter feito acordo com o atacante Robinho, ex-Santos, de R$ 4,3 milhões. Não me lembro tanto assim das jogadas e gols de Robinho no time mineiro que valessem tanto dinheiro. Ele ficou no Atlético-MG entre fevereiro de 2016 e dezembro de 2017. Duas temporadas, portanto. O clube vai pagar em 35 parcelas. Mesmo assim, esse dinheiro sairá dos cofres do time.

Os presidentes e dirigentes compram sem olhar preço e produtividade porque o dinheiro não tem dono no futebol. Ninguém paga pelos erros financeiros tampouco deixa de gastar o que entra na conta. Não há punições para ex-presidentes e todas as contas são aprovados no fim. As dívidas só aumentam. O máximo que acontece é esses presidentes deixarem o clube pela porta dos fundos, como o santista José Carlos Peres. O enredo vale para todos.

E por que esse assunto tem sido tão importante no noticiário esportivo. Porque dirigentes que têm mais respeito pelo dinheiro do clube, investe melhor, forma times melhores e deixa legados. Ter estádios modernos pode ser um legado. Melhorar o centro de treinamento também. Comprar apartamentos para alojar seus atletas e jogadores da base ajuda.

Em relação a times profissionais, se cada elenco tivesse dois jogadores bons em cada uma das onze posições, estava de bom tamanho. 24 bons jogadores. Com dinheiro, pode-se escolher melhor, manter os bons atletas e não retaliar grupos a cada temporada. Alguns times já fazem isso. Outros ainda não. O caso do Cruzeiro é vistoso. Gastou o que não tinha nem podia e entrou pelo cano.

Jogar futebol não é uma ciência exata, há altos e baixos ao longo da carreira de qualquer atleta, e até de treinador. Ocorre que esses jogadores, quando estão em alta, fazem bons contratos, mas quando estão em baixa, não reduzem a pedida. Isso tem quebrado os clubes. E atrapalhado na formação de boas equipes. A Fifa, como todos já sabem, está de olho nas transações dos jogadores brasileiros. Os maus pagadores não serão perdoados até pagar as dívidas. Cruzeiro perdeu pontos na Série B por isso.

Os investidores já foram melhores e maiores. Estão agora mais exigentes. O dinheiro anda curto também, mas o futebol sempre foi uma porta de entrada para bons negócios e uma verdadeira vitrine no País. Ainda é. Mas é preciso oferecer mais transparência para esses parceiros. É preciso apresentar ideias novas, mais qualidade em campo, mais interação com o público consumidor. A bolha do futebol precisa abrir como NBA ou NFL.

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