Futebol brasileiro parece que vai voltar a fórceps, pela vontade de dirigentes e do presidente Bolsonaro

Flamengo e Vasco forçam a barra para treinar no Rio, estiveram em Brasilia e CBF não se manifesta, mas também quer

Robson Morelli

22 de maio de 2020 | 11h00

O futebol brasileiro caminha para voltar a fórceps, sem o consentimento dos órgãos de saúde, dos governadores e das pessoas que estão mais preocupadas em evitar mortes do que em retomar a economia no País. Digo que as duas situações são importantes, mas salvar vidas quando o Brasil se aproxima de seu platô em relação à doença me parece mais urgente. A retomada deveria esperar a curva-Brasil da covid-19 inverter o sentido. Cair. Vai acontecer, mas não nesse momento. Obrigar os jogadores a saírem de suas casas para treinar é arriscado, como é arriscado manter a população nas ruas e em atividades econômicas nesse momento. Estamos na casa dos 1.100 óbitos por dia, com os hospitais lotados, sem leitos nas UTIs, sem respiradores.

O futebol já está parado por meses, não custaria, portanto, ficar parado um pouco mais. Ele deveria ser um ícone da retomada brasileira à vida, mas só depois de o País, unido, mudar o rumo dessa guerra e conseguir tratar seus doentes nos hospitais e hospitais de campanha, quando médicos e enfermeiros puderem sorrir novamente, quando o Brasil parar de enterrar tanta gente por dia. O futebol deveria ser esse sol da retomada e da alegria, da volta às ruas, das bandeiras tremulando. Do gol.

Mas não. Estamos forçando a barra. Um jogador do futebol inglês admitiu semana passada seu temor em voltar a treinar e levar o vírus para seu filho pequeno em casa. Voz corajosa e legítima. Única. Os clubes dizem que todos os jogadores querem voltar. Virou briga política. Quem quer voltar está com o presidente Bolsonaro, defensor da ideia. Vasco e Flamengo estiveram com ele em Brasília. Quem não quer, está contra ele. Nada disso. O futebol pode ter ideias próprias, vontades e desejos únicos. Ações independentes. Pode se não fosse a CBF omissa. Não se manifesta. Não regulamenta. Não tem interesse em assumir o comando. Para tudo, ela delega. Lava as mãos e não se mete. Trabalha nos bastidores. Sua vontade é a mesma do presidente da República.

Todos os brasileiros amam o futebol e sentem muita saudade das partidas. Isso é fato. O futebol é um dos eventos anuais mais rentáveis do Brasil e do mundo. Seu calendário atinge 12 meses por ano. Movimenta muito dinheiro e sustenta milhares de famílias. Por isso que o Brasil deveria esperar um pouco mais para retomar suas atividades, para que ele volte bem, sem sobressaltos e riscos. O País chora seus mortos. O futebol não pode ser retomada em meio a isso.

Seguindo os exemplos de fora, da Europa, o Brasil vai entrar no seu pico da doença e depois vai conseguir controlá-la. Aí sim abrimos a economia aos poucos, retomamos os empregos e as atividades profissionais. Lutamos nossa segunda batalha, que será a recuperação econômica do País. Todos juntos e não separados como estamos agora. O futebol vai ser preponderante nessa retomada, na volta da alegria e das competições, do interesse das pessoas, do trabalho formal e informal, mas não agora.

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